Linkin Park no Rock in Rio Lisboa: uma banda que aprendeu a sobreviver ao próprio legado

Havia uma pergunta inevitável a pairar sobre o regresso dos Linkin Park a Lisboa: como continuar depois da perda de Chester Bennington? Nove anos depois da morte do vocalista, a banda continua a enfrentar o desafio de honrar um legado que ajudou a definir uma geração sem ficar aprisionada a ele. No Rock in Rio Lisboa, perante cerca de cem mil espetadores, a resposta foi clara: os Linkin Park já não vivem apenas da memória. Continuam a ser uma banda com presente e, sobretudo, com futuro.
Rita Seixas
Nelson Tiago
Desde os primeiros minutos, ficou claro que a banda não veio a Lisboa para apresentar um exercício de nostalgia. Embora o peso emocional do catálogo histórico seja inevitável, o grupo procurou construir uma narrativa centrada no presente, alternando clássicos incontornáveis com material mais recente. O resultado foi um concerto que evitou cair na armadilha do "greatest hits show", algo que muitas bandas da mesma geração já não conseguem evitar.
Mike Shinoda continua a ser o centro da banda
Musicalmente, os Linkin Park surgiram em excelente forma. Mike Shinoda continua a ser o centro gravitacional da banda, assumindo o papel de líder com uma naturalidade conquistada ao longo dos últimos anos. A sua presença em palco revelou-se determinante para manter a coesão de um espetáculo que exige equilíbrio entre agressividade, emoção e espetáculo visual.
Mais do que fundador ou principal compositor, é hoje o elemento que mantém viva a identidade dos Linkin Park. A sua presença em palco transmite segurança e confiança, funcionando como elo entre diferentes épocas da banda.
As guitarras recuperaram a agressividade que ajudou a definir o nu metal dos anos 2000, enquanto a secção rítmica manteve a intensidade necessária para sustentar um espetáculo desenhado para grandes recintos. Tudo soou profissional, competente e rigorosamente ensaiado.
A ausência que continua presente
Nenhuma análise a um concerto dos Linkin Park pode ignorar a ausência de Chester Bennington. O vocalista continua presente na memória coletiva dos fãs e a sua marca permanece inscrita em praticamente todo o repertório da banda.
Mas aquilo que mais impressiona nesta nova fase é a forma como o grupo aprendeu a lidar com essa herança. Em vez de transformar cada concerto numa homenagem permanente, os Linkin Park optam por seguir em frente sem apagar o passado. É uma decisão artisticamente mais difícil, mas também mais honesta.
A sombra de Chester continua presente em cada atuação, mas a banda parece finalmente ter encontrado uma forma de lidar com essa ausência sem transformar cada concerto num exercício de luto coletivo. O legado do antigo vocalista está lá, inevitavelmente, mas já não paralisa o grupo. Pelo contrário: serve de motor para uma nova etapa.
Emily Armstrong: entre a segurança e o peso do legado
A nova fase dos Linkin Park ganha também uma nova presença vocal em palco com Emily Armstrong. Sem procurar qualquer tipo de substituição impossível, a sua abordagem centra-se na adaptação ao repertório atual da banda e na construção de uma nova dinâmica em palco. Nos temas mais recentes, a prestação revelou-se segura e funcional, ainda que inevitavelmente enquadrada pelo peso do legado que a antecede.
Visualmente, o espetáculo correspondeu aos padrões de uma produção de grande escala. Ecrãs gigantes, sincronização rigorosa entre imagem e som e uma estética futurista que dialoga bem com a identidade da banda. Ainda assim, houve momentos em que a encenação pareceu excessivamente formatada, típica dos grandes circuitos internacionais de festivais. A execução foi irrepreensível; a surpresa, nem sempre.
O público português respondeu sem reservas. As canções mais emblemáticas transformaram o recinto num coro gigantesco, confirmando a relação especial que os Linkin Park mantêm com Portugal desde as primeiras visitas ao país. Entre refrões cantados em uníssono e telemóveis erguidos para eternizar cada momento, assistiu-se a uma demonstração de fidelidade rara, mesmo para os padrões de uma banda habituada a multidões.
Mais interessante do que a reação nostálgica aos clássicos foi perceber como os temas mais recentes foram recebidos com genuíno entusiasmo. É um sinal encorajador para um grupo que continua a enfrentar o desafio de escrever novos capítulos sem apagar aqueles que o transformaram num fenómeno global.
Os Linkin Park não apresentaram o concerto mais surpreendente da história do Rock in Rio Lisboa, nem reinventaram a linguagem dos festivais de grande dimensão. O que fizeram foi algo talvez mais difícil: provar que continuam a ter uma razão válida para existir enquanto banda.
Num panorama onde muitos regressos vivem exclusivamente da memória, os Linkin Park mostraram-se comprometidos com o presente e com o futuro. O concerto de Lisboa não foi apenas uma celebração do que a banda foi. Foi sobretudo a confirmação daquilo que ainda pode vir a ser.
Setlist
Act I
The Emptiness Machine (extended intro)
Lying From You
Crawling
Up From the Bottom
Somewhere I Belong
Act II
The Catalyst
Burn It Down
Where'd You Go
Waiting for the End
Two Faced
A Place for My Head
IGYEIH
One Step Closer
Act III
Lost
Breaking the Habit
Overflow
What I've Done
Numb
Heavy Is the Crown
Bleed It Out
Encore
Papercut
In the End
Faint
Inserido por Redação · 23/06/2026 às 11:15