O "Auto da Barca" de Seu Jorge no Coliseu do Porto [fotos + texto]


O "Auto da Barca" de Seu Jorge no Coliseu do Porto [fotos + texto]

Seu Jorge é presença assídua em Portugal mas continua a esgotar as salas por onde vai passando. Desta vez foi o Coliseu do Porto que lotou para receber este artista que, mais do que um espetáculo de música, nos traz uma encenação que é quase uma ode ao Brasil e ao melhor que por lá se faz.

O que assistimos deste Seu Jorge aproxima-se de um espetáculo de teatro que traz a euforia do Pagode e do Samba mas também nos leva na onda indomável do Jazz e do Bossa Nova. Uma mistura de sonoridades que torna o espetáculo completo e nos mostra a versatilidade deste artista que já soma 20 anos de palco um pouco por todo o mundo.

"Chega de Saudade" foi a escolhida para abrir as hostilidades. Com letra de Vinicius de Moraes e composição de Tom Jobim, a canção de 1958 conquistou de imediato este púbico que conhece estes versos de cor. Era notável a forte presença da comunidade brasileira no Coliseu mas também se ouvia muito o sotaque do lado de cá do oceano, até porque Portugal sempre foi assumidamente um admirador de Seu Jorge.

Seguiu-se "Sunshine", da sua autoria, e também "Zé do Caroço", uma canção de "Leci Brandão" datada do ano de 2000. Esta segunda teve direito a um momento onde Seu Jorge tocou uma flauta transversal e mostrou que não é só de guitarra que se faz este artista. No fim da canção, assistiu-se a um momento intrigante onde o artista declamou uma palavras que, por vezes impercetíveis, nos faziam querer que se tratava de uma história.

Um início de concerto menos agitado que deu rapidamente lugar às contagiantes "Carolina", "Mina do Condomínio" e "Amiga da Minha Mulher". Três dos temas mais esperados pela plateia e que levaram o Coliseu a cantar as letras em coro enquanto muitos se levantaram para dar um passinho de samba. Altura para ouvir a qualidade dos músicos que acompanharam o artista num momento de solo de guitarra, baixo, teclas, percussão e bateria.

O concerto foi navegando entre os temas icónicos de Pagode do artista e os trabalhos mais intimistas como é o caso do tributo a David Bowie que Seu Jorge editou em 2005.

"É mesmo um privilégio estar aqui. Muito obrigado pela presença de todos" – disse. O sentimento era claramente recíproco assim como a expetativa do público era quase palpável. O alinhamento seguiu como "Quem Não Quer Sou Eu" e com "São Gonça".

Já a caminhar para o fim do espetáculo ouvimos três dos temas que Seu Jorge incluiu no seu álbum de tributo a David Bowie. "Life On Mars", "Lady Stardust" e "Space Oddity" foram tocadas apenas com o artista em palco ao som da sua guitarra. Um momento que não foi muito respeitado pela plateia que, por vezes, perturbou a calma que estas canções pediam com conversa.

Com a banda de volta ao palco, Seu Jorge entoou "Tive Razão", um original seu, assim como "Retrato Em Preto e Branco", uma bonita canção de Tom Jobim e Chico Buarque.

O encore contou com a familiar "Mas Que Nada" de Jorge Ben Jor e culminou na icónica "Burguesinha". O tema de 2007 fez as delícias deste público que se levantou para cantar e dançar ao som desta canção que vai ser sempre obrigatória nas apresentações do artista.

Terminou em festa este espetáculo que trouxe o samba e o pagode que a plateia ansiava mas que também mostrou o jazz e a bossa nova deste versátil Seu Jorge. O artista brasileiro continua a digressão em solo luso, esta sexta e sábado no Casino do Estoril.

Fotografia: António Teixeira
Texto: Daniela Fonseca