MEO Kalorama: Aliens, entertainers, desilusões, manifestos sexuais-políticos e mosh


MEO Kalorama: Aliens, entertainers, desilusões, manifestos sexuais-políticos e mosh

Esta quinta edição do MEO Kalorama no Parque da Bela Vista marcou um ano de consolidação para o festival. Pela positiva, a maior consciência da sua dimensão, reduzindo o espaço, retirando um palco desnecessário (ainda haverá outro a mais…) e em conjunto com uma maior afluência de público, conseguiu finalmente parecer bem composto nos três dias. Pela negativa, o constante mau som no Palco MEO e os ridículos aumentos no preço do "aluguer" de copos (em conjunto com o único tamanho dos mesmos, a não troca por outros e os preços exorbitantes da cerveja) que camuflam, sob a bandeira da sustentabilidade, uma ganância de merceeiro que não se justifica.

📸 MEO Kalorama 📋 Miguel Lopes

Mas, no que à música diz respeito, viram-se bons concertos numa aposta em apenas um ou dois nomes que levaram o público ao espaço e muitos outros nomes para encher cartaz ou revelar bandas em ascensão.

No primeiro dia a surpresa (ou não) de ver o Palco MEO com imensa gente já evangelizada a fazer o triângulo com as mãos, logo na entrada dos aliens Angine de Poitrine. A banda canadiana é já um fenómeno de popularidade no nosso país! Ao impacto inicial dos fatos às bolinhas, das máscaras em papel machê, da comunicação em linguagem ininteligível ou da guitarra de dois braços (na realidade um braço guitarra e outro baixo), junta-se a boa música num rock cheio de loops (rock matemático como alguns lhe chamam), a fazer lembrar os primeiros álbuns de King Gizzard and the Lizard Wizard.

Neste dia, destacam-se ainda as semi-desilusões de uns Interpol demasiado letárgicos e apressados para o público que tinham à frente e ainda Grace Jones que, apesar de ainda manter alguma presença, já denota os efeitos dos quase oitenta anos na voz e na energia. Ainda assim, conseguiu animar o público à espera do headliner do dia.

O grande vencedor da noite (que já o era antes de entrar) foi o entertainer Robbie Williams (foto inicial), com os seus mega-hits e especialmente o seu humor britânico nas tiradas e histórias entre canções. Foi definitivamente entretenimento, para uma que foi com certeza das maiores enchentes do MEO Kalorama.

Para o segundo dia estava guardada uma das maiores desilusões do festival: Ms. Lauryn Hill. Num dia marcado por muitos nomes menos chamativos, num cartaz feito claramente para tapar buracos, os portugueses foram os reis destacando-se Sam The Kid com uma orquestra e Orelha Negra e a colaboração entre Dino de Santiago com Criolo e Amaro.

Mas voltando à headliner muito esperada, retivemos um concerto muito estranho em algo que deveria ser uma celebração da artista americana com convidados especiais (Wyclef Jean, seu companheiro nos Fugees e os filhos YG e Zion Marley), e em que acabaram por ser os convidados a ofuscar Lauryn. Esperavam-se os sucessos da cantora e dos Fugees e eles foram aparecendo, mas no meio de muita confusão entre ausências longas de Lauryn Hill no palco, demasiado destaque aos convidados ou versões de Shakira. Se os fãs terão ficado agradados com a tão aguardada presença de Lauryn Hill no nosso país, também terão ficado com um sabor agridoce com o que assistiram.

Para o último dia estava guardado o rock mais pesado, entrecortado com hip-hop e a performance-manifesto de Peaches. Depois de uns High Vis sem grande novidade e de uma Wednesday sonolenta, o furacão Peaches chegou para agitar as multidões. A artista canadiana já é conhecida pelas performances energéticas e feitas para chocar, mas aqui apanhou-se com um palco principal e uma multidão "a fazer tempo" para os grandes da noite o que ajudou ao espanto de muitos. Apostando no seu formato sozinha em palco (ou quase) e com música gravada e já preparada para lhe deixar rédea solta, Peaches começou o seu número que junta sexualidade, afirmação de causas (desde a identidade de género à Palestina) e um "i don't give a fuck on what you’re gonna think about me" que deixou muitos de boca aberta. Mas só quem ainda não a conhecia…

Peaches @ MEO Kalorama

Ainda no palco principal, assistimos à confirmação da ascensão meteórica dos Turnstile. Os ainda jovens americanos de Baltimore, já conquistam multidões com o seu hardcore pop, cheio de riffs orelhudos, canções curtas e simples e uma energia inesgotável. Ainda que o vocalista Brenda Yates (que ainda fez uma perninha no concerto de Peaches em "Fuck the Pain Away") pareça que por vezes não consegue ter amplitude vocal necessária para as canções que canta, os Turnstile são claramente uma banda em crescendo e que deixam curiosidade para ver onde poderão chegar.

Para fechar o palco principal e o festival deste ano, os muito aguardados Deftones. Se o seu metal alternativo não agrada a todos, as imensas t-shirts da banda que circulavam pelo parque pareciam indicar o contrário. Chico Moreno sempre intenso, a intercalar a voz quase doce com os gritos ruidosos, conduziu um espetáculo quase imaculado que deixou os fãs de água na boca a desejar por um regresso rápido.

Deftones @ MEO Kalorama

Como dissemos no início, este foi um ano que pode marcar uma viragem no MEO Kalorama. Ainda estamos para confirmar se para definitivamente, ascender ou por outro lado, cair em mesquinhices que podem acabar com o festival em poucos anos.