Duran Duran na MEO Arena: Uma noite que precisou de tempo para encontrar o seu lugar

Mais de quatro décadas depois de terem ajudado a definir a pop dos anos 80, os Duran Duran regressaram a Lisboa para uma MEO Arena praticamente cheia. A noite começou com Filipe Karlsson, continuou com quase meia hora de atraso e encontrou uma banda inicialmente algo presa, mas que foi crescendo até deixar os problemas para trás e fazer aquilo que o público realmente queria: celebrar uma coleção impressionante de canções.
Samuel Martins
Miguel Lopes
Coube a Filipe Karlsson abrir a noite. O músico luso-sueco levou à MEO Arena a sua pop descontraída, eletrónica e dançável, perante uma sala que ainda se ia compondo. Uma escolha suficientemente diferente dos Duran Duran para não funcionar apenas como aperitivo nostálgico e que antecedeu um concerto anunciado para as 21h00.
Só que às nove ainda não havia Duran Duran.
Nem às nove e dez.
A banda acabaria por entrar em palco cerca das 21h25, quase meia hora depois da hora prevista, quando a impaciência já começava a sentir-se em algumas zonas da Arena.
Uma versão sinfónica gravada de "Free to Love" serviu de introdução antes de Simon Le Bon, Nick Rhodes, John Taylor e Roger Taylor surgirem finalmente para "Is There Something I Should Know?", rapidamente seguida de "The Wild Boys", "A View to a Kill" e "Hungry Like the Wolf". No papel, dificilmente se poderia pedir um arranque com mais êxitos.
Na prática, demorou algum tempo a funcionar.
Simon Le Bon parecia sentir dificuldades na voz durante os primeiros temas. Havia notas que chegavam com esforço, outras que eram entregues à plateia e uma sensação geral de que o vocalista ainda estava a tentar perceber exatamente até onde conseguiria ir naquela noite. Aos 68 anos não se espera, naturalmente, que cante exatamente como em 1983, mas as limitações iniciais eram perceptíveis.
Também a própria banda parecia demasiado correta.
Durante parte desta primeira fase do concerto tive por momentos a estranha sensação de estar a assistir a uma boa covers band dos próprios Duran Duran. Estava tudo tecnicamente no sítio, os arranjos eram reconhecíveis, John Taylor continuava a demonstrar porque tantas destas músicas dependem do baixo e a componente visual ocupava grande parte dos ecrãs. Mas faltava qualquer coisa que ultrapassasse a simples reprodução das canções.

Curiosamente, esses mesmos ecrãs tinham uma identidade bastante marcada. Grande parte dos vídeos que acompanharam o espetáculo mergulhava num imaginário sobrenatural, fantasmagórico e por vezes quase de filme de terror, prolongando visualmente o ambiente de Halloween que a banda tinha explorado poucos dias antes no concerto especial em Londres. Mesmo já em novembro, fantasmas, figuras inquietantes e imagens sombrias continuavam a pairar sobre o palco da MEO Arena, dando ao espetáculo uma coerência visual que ia além da simples sucessão de videoclips.
Versões também não faltaram. "Evil Woman", dos Electric Light Orchestra, apareceu cedo no alinhamento, seguindo-se a mistura de "Lonely in Your Nightmare" com "Super Freak", de Rick James. Mais tarde haveria ainda "White Lines (Don't Don't Do It)", de Grandmaster Melle Mel, e "Girls on Film" acabaria misturada com "Psycho Killer", dos Talking Heads.
A noite começou, no entanto, a mudar de figura com "The Reflex" e sobretudo quando o ritmo baixou.
"Winter Marches On" abriu caminho para "Ordinary World", momento em que Le Bon parecia finalmente mais seguro e a Arena respondeu com milhares de luzes de telemóveis. Antes da música, o vocalista deixou também uma mensagem para aqueles que continuam a lutar pela paz e por aquilo a que chamou simplesmente um "mundo normal".
Foi talvez aqui que o concerto começou verdadeiramente.
"Come Undone", dividida vocalmente com Anna Ross, confirmou essa recuperação e "Notorious" e "I Don't Want Your Love" devolveram o espetáculo à pista de dança. O som parecia agora mais solto, Le Bon tinha encontrado outra confiança e aquela sensação inicial de distanciamento começava finalmente a desaparecer.
Depois de "Free to Love", chegou um dos momentos mais curiosos da noite e provavelmente um dos que passou despercebido a boa parte da plateia.
Os Duran Duran tocaram "Heads Will Roll", dos Yeah Yeah Yeahs.
Não era um clássico obscuro da própria banda nem um tema novo. Era uma versão da canção lançada pelos nova-iorquinos em 2009 e que os Duran Duran tinham levado ao palco apenas poucos dias antes, no concerto especial de Halloween em Londres. Em Lisboa, encaixou de forma tão natural no universo eletrónico do grupo que facilmente terá sido confundida por parte da audiência com mais uma canção dos próprios Duran Duran.
E, rodeada por toda aquela estética fantasmagórica dos ecrãs, fazia ainda mais sentido.
Também talvez diga alguma coisa sobre a influência que o grupo continua a exercer. A pop eletrónica, o rock, o disco e aquela obsessão pelo lado visual da música que os Duran Duran ajudaram a popularizar nos anos 80 regressaram depois sob inúmeras outras formas. Ouvir hoje uma canção dos Yeah Yeah Yeahs no meio de "Notorious", "Planet Earth" ou "Girls on Film" já não soa propriamente a uma invasão estrangeira.
A reta final foi precisamente onde a noite se tornou mais convincente. "Planet Earth", "White Lines", "(Reach Up for the) Sunrise" e o encontro de "Girls on Film" com "Psycho Killer" trouxeram finalmente para o palco a energia que tinha faltado no início.
Depois de uma breve saída ficaram reservadas para o encore duas músicas que dispensavam qualquer explicação. "Save a Prayer" transformou novamente a MEO Arena num céu de pequenos ecrãs iluminados e "Rio" encerrou uma noite que não tinha começado particularmente bem, mas que terminou bastante longe dessa primeira impressão.
Não foi um concerto perfeito. O atraso, as dificuldades vocais iniciais de Simon Le Bon e uma primeira parte demasiado automática impediram que a noite arrancasse com a força prometida pelo alinhamento. Mas a partir do momento em que Le Bon encontrou a voz e a banda deixou de soar como uma reprodução demasiado polida de si própria, ficou novamente evidente porque aquelas canções sobreviveram a mais de quatro décadas. No final, talvez esse tenha sido o verdadeiro triunfo dos Duran Duran: não conseguir apagar completamente a passagem do tempo, mas provar que ainda sabem ultrapassá-la quando o concerto finalmente ganha vida.
Duran Duran — Lisboa, 3 de novembro de 2026
Free to Love (versão instrumental sinfónica)
Is There Something I Should Know?
The Wild Boys
The James Bond Theme (John Barry)
A View to a Kill
Hungry Like the Wolf
Evil Woman (Electric Light Orchestra)
Lonely in Your Nightmare / Super Freak (Rick James)
The Reflex
Only in Dreams
Winter Marches On
Ordinary World
Come Undone
Notorious
I Don’t Want Your Love
Free to Love
Heads Will Roll (Yeah Yeah Yeahs)
Planet Earth
White Lines (Don’t Don’t Do It) (Grandmaster Melle Mel)
(Reach Up for the) Sunrise
Girls on Film / Psycho Killer (Talking Heads)
Encore:
Save a Prayer
Rio
Inserido por Redação · 05/11/2026 às 11:43