André Rieu na MEO Arena: A música clássica também sabe fazer festa


André Rieu na MEO Arena: A música clássica também sabe fazer festa

André Rieu regressou a Lisboa para a primeira de três noites na MEO Arena. Acompanhado pela Johann Strauss Orchestra, solistas, vestidos de gala, valsas, humor e muita interação com a plateia, o violinista neerlandês voltou a demonstrar que uma orquestra também pode comportar-se como uma banda de arena.

📸 Inês Gomes Lourenço 📋 Miguel Lopes

Há concertos em que se pede silêncio.

Neste, André Rieu passa boa parte da noite a tentar fazer exatamente o contrário.

Palmas, gargalhadas, gente a cantar, casais a dançar e milhares de pessoas que, durante quase três horas, parecem esquecer que estão perante uma orquestra de dezenas de músicos e não num gigantesco salão de baile.

Na noite de quinta-feira, 29 de outubro, o violinista e maestro neerlandês regressou à MEO Arena para a primeira de três apresentações consecutivas em Lisboa, acompanhado pela sua Johann Strauss Orchestra, solistas internacionais e um espetáculo montado à escala de quem há muito deixou de caber apenas nas salas de música clássica. A própria produção anuncia uma formação de cerca de 60 a 70 músicos e uma duração próxima das três horas.

E basta olhar para o palco para perceber que André Rieu também nunca pretendeu ser apenas um maestro.

A orquestra surge em traje de gala, as cores e a iluminação aproximam o cenário mais de uma opereta do que da austeridade habitual de um concerto sinfónico e, no centro, está um homem que alterna constantemente entre violinista, maestro, apresentador e mestre de cerimónias.

Aos 77 anos, Rieu continua a dominar essa fórmula com uma naturalidade quase desconcertante.

Fala com o público, conta histórias, introduz os músicos, provoca gargalhadas e só depois volta ao violino. Não existe aqui aquela fronteira invisível que normalmente separa uma orquestra da plateia. Pelo contrário: todo o espetáculo parece construído para a destruir.

E talvez seja precisamente aí que esteja o segredo.

Porque musicalmente a viagem atravessa territórios bastante diferentes. Naturalmente há Johann Strauss e as grandes valsas vienenses, mas também ópera, opereta, musicais, bandas sonoras, baladas românticas e melodias populares. O atual espetáculo de Rieu continua precisamente a apostar nessa mistura, recusando a ideia de que uma noite orquestral tenha obrigatoriamente de escolher entre ser séria ou popular.

Pode ser as duas coisas.

E, por vezes, tudo ao mesmo tempo.

A Johann Strauss Orchestra é naturalmente o motor da noite. Cordas, metais, madeiras, percussão e vários solistas vão mudando constantemente o centro de atenção, enquanto Rieu conduz e toca o seu Stradivarius, instrumento que continua a assumir um papel central no espetáculo.

Mas há uma diferença importante entre um concerto de André Rieu e ouvir as mesmas composições numa sala convencional.

Aqui é permitido divertir-se.

Na realidade, é quase obrigatório.

Quando chega a valsa, há casais que se levantam. Quando uma melodia é reconhecida, canta-se. Quando o maestro pede palmas, praticamente ninguém se interroga se isso estará de acordo com a etiqueta da música clássica.

A etiqueta ficou à porta.

Há também uma componente teatral assumida. Os vestidos exuberantes das instrumentistas, os convidados, as entradas e saídas de palco, as pequenas brincadeiras entre músicos e maestro e a constante comunicação com a plateia transformam a sucessão de temas numa espécie de variety show orquestral.

É uma fórmula que facilmente poderia tornar-se demasiado açucarada.

E, ocasionalmente, aproxima-se perigosamente disso.

Mas Rieu nunca escondeu aquilo que pretende fazer. Não está interessado em convencer puristas de que reinventou Strauss. Está interessado em fazer com que uma pessoa que nunca pisaria voluntariamente uma sala de concertos clássicos passe três horas a ouvir uma orquestra.

Visto dessa perspetiva, é difícil discutir os resultados.

Mais de quatro décadas de carreira, mais de 40 milhões de discos vendidos e arenas cheias em vários continentes não aconteceram propriamente por acidente. Rieu percebeu cedo que o repertório clássico podia chegar a muito mais gente se retirasse parte da solenidade que o rodeia e devolvesse à valsa aquilo que, afinal, sempre esteve na sua origem.

Dançar.

O público da MEO Arena também ajuda a explicar o fenómeno. Há várias gerações nas bancadas e na plateia, famílias inteiras, casais e fãs que claramente não estão ali pela primeira vez. Ao contrário de muitos espetáculos onde público e artista parecem pertencer a universos separados, aqui existe uma familiaridade quase doméstica.

Rieu sabe disso.

E explora-a sem pudor.

Cada despedida parece poder ser a última e rapidamente deixa de ser. Há sempre espaço para mais uma música, mais uma brincadeira, mais um aplauso. O final de um concerto de André Rieu é quase um conceito abstrato.

Até porque Lisboa ainda não terminou.

Depois da noite de quinta-feira, o neerlandês permanece na MEO Arena para mais dois concertos, esta sexta-feira e sábado, 30 e 31 de outubro.

Talvez chamar-lhe apenas concerto de música clássica seja, por isso, demasiado curto.

Há música clássica.

Há espetáculo.

Há humor.

E há milhares de pessoas a sair de uma arena com vontade de dançar uma valsa.

André Rieu provavelmente considera isso missão cumprida.