Mariza no EDP Cool Jazz [fotos + texto]


Mariza no EDP Cool Jazz [fotos + texto]

Silêncio que se vai cantar… jazz?! Esta vai passar a ser a nova máxima do público que assistiu a mais uma noite de concertos do festival EDP Cool Jazz, os únicos desta 11ª edição que tiveram lugar no Estádio Municipal de Oeiras, no Parque dos Poetas.

A estrela do palco justificava a escolha do local, quer pela poesia, quer pela dimensão, Mariza, a maior «cantadeira de fados» desde Amália Rodrigues e uma das mais aplaudidas artistas do circuito mundial da World Music.

Depois do silêncio ouviu-se "A saudade andou comigo…" o primeiro verso do fado "Já me deixou" com que Mariza introduzia um espetáculo minuciosamente preparado para o público português e para a sua "família", como ela própria não se cansava de repetir "Estou tão feliz de estar aqui a cantar para vós".

Em jeito de apresentação e para quebrar o já rotineiro frio deste festival Mariza canta logo de seguida "Beijo de Saudade", um tema em que explora as suas raízes africanas, parcialmente cantado em crioulo, que resulta do seu trabalho com Tito Paris (o talentoso músico, compositor e cantor cabo-verdiano). A menina de Moçambique (filha de pai português, e mãe moçambicana), criada no bairro popular lisboeta da Mouraria tem nos últimos anos africanizado os fados tradicionais tornando a sua música ainda mais aberta ao mundo, sem perder a sua intensa identidade portuguesa. Ou como ela própria diz “se eu sou fadista é pouco importante, o importante é cantar em português nos quatro cantos do mundo… cada vez o meu fado é mais como eu, mestiço”!

Neste concerto Mariza apresenta o seu novo álbum Best of Mariza como uma enorme homenagem à sua família e aos seus heróis.

Uma das primeiras homenageadas é a sua avó a quem dedica o tema "Transparente", do seu  álbum homónimo, editado em 2005. Neste álbum a artista alcança uma maturidade vocal que lhe permite tanto sussurrar como demonstrar os seus plenos poderes, articulando as letras de uma forma ainda mais expressiva.  2005 é também o ano em que recebe o Prémio de Melhor Intérprete da Fundação Amália Rodrigues e o grau de Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique, das mãos do então Presidente da República, Jorge Sampaio.

O público que enchia a plateia e as bancadas até uma distância de se perder de vista, resistiu durante muito tempo a cantar, mas nunca no momento de aplaudir, em particular nos temas mais conhecidos como "Barco Negro" que foi de completa ovação. Mais tarde a artista em "Rosa Branca" acaba por os desafiar a "cantar direito" as rimas "Quem tem, quem tem
Amor a seu jeito, Colha a rosa branca, Ponha a rosa ao peito", originando uma verdadeira competição de vozes agudas tão desafinadas quanto cómicas.

Os fãs ingleses entre o público tiveram também a atenção de Mariza que aproveitou para perguntar o número de concertos a que assistiram até hoje. A resposta até custava a acreditar, 56, yes, fifty-six (uns verdadeiros mecenas)!

O tema instrumental marcou a meio do espetáculo e deu o mote à homenagem seguinte, a "família musical". Os músicos foram repetidamente apresentados, Pedro Jóia, guitarra (que se manteve da primeira parte do espetáculo), Rúben Alves, piano, António Barbosa, violino, José Manuel Neto, guitarra portuguesa, Yami, voz e baixo, Vicky Marques, bateria e percussão. Esta homenagem culminou com a interpretação doce de Yami da canção “Mãe Negra”.

Esta grande homenagem prosseguiu para os seus heróis, aqueles que a vestem tão glamorosamente e dão aso à capacidade de se transformar ao longo do espetáculo, como João Rôlo, o seu estilista de sempre. E a seguir os mais próximos, em primeiro lugar ao seu pai, segundo a artista, o seu primeiro herói, a quem dedicou um fado "Boa noite solidão" cantado à capela no meio do público (talvez para tentar reproduzir o ambiente informal em que o cantava com o pai), exigindo deste um silêncio quase impossível, o que o tornou ainda mais extraordinário.

Com quase duas horas de espetáculo, Mariza com uma nova transformação visual voltou ao palco trazendo alguns standards do jazz, provando que o espetáculo foi não só ensaiado para o público português, como também, e em particular, para o público deste festival.

O som da guitarra portuguesa a acompanhar as canções seguintes tão internacionais como intensas exacerbavam ainda mais as letras, deixando o público enebriado. Foi assim com a música "Fascinação" de Elis Regina, com "Come as You Are" dos Nirvana, ou "I Will Always Love You" de Whitney Houston, dedicada ao seu marido, o seu "segundo herói", também a assistir ao espetáculo.

Por fim, ao som da magnífica letra de Miguel Gameiro "Eu sei que a Vida tem Pressa":

"Eu sei, que a vida tem pressa
que tudo aconteça,
sem que a gente peça,
.. tempo é coisa rara
e a gente só repara,
quando ele já passou…
Vou pedir ao tempo,
que me dê mais tempo
para olhar para ti…"

Mariza homenageia o seu filho percorrendo a plateia a cantar e regressa ao palco com o filho no colo, terminando a interpretação e o sufoco (e algumas lágrimas) de emoção do público.

Emoção essa que perdurou até ao final, com Mariza a dedicar ao público o belíssimo fado "Ó Gente da Minha Terra" cantada entre a plateia, depois regressou ao palco para interpretar o último tema mais alegre "para poder terminar em festa”.

Nunca um Best of foi tão levado à letra num espetáculo. Não admira que Marisa encha os palcos mais importantes do mundo, como o Olympia de Paris, o Royal Festival Hall de Londres, a Sydney Opera House, o Carnegie Hall de Nova Iorque, etc., etc., cabe ao público português continuar a reconhecer o seu talento, aplaudindo-a com fervor em muitos "para além" dos 56 espetáculos!

Na primeira parte a convite da artista estiveram o fadista Ricardo Ribeiro e o guitarrista Pedro Jóia, a dupla que cantou no jantar inaugural do Pavilhão de Portugal na Bienal de Veneza 2013.

Ricardo Ribeiro apresentou alguns temas do seu quarto álbum, Largo da Memória, que tem merecido os mais rasgados elogios da crítica nacional (e que atingiu o terceiro lugar do Top Nacional de vendas). "Entrega" com música de Carlos Gonçalves e letra do poeta Pedro Homem de Mello, e "Fado do Alentejo" com música de Rão Kyao e letra Rosa Lobato Faria, foram alguns do temas interpretados.

Pedro Jóia o vencedor do Prémio Carlos Paredes, com o disco À espera de Armandinho, onde aborda a obra do guitarrista lisboeta da 1ª metade do Séc. XX, Armando Augusto Freire, mais conhecido por Armandinho, colocou na guitarra a sua voz, transportando-nos do fado para o flamenco e para a música tradicional portuguesa, revelando os terrenos que têm explorado nos seus projetos pessoais.

No penúltimo tema, "Quando me sinto só", Ricardo Ribeiro levantou-se para apresentar a convidada especial "uma pessoa por quem tenho muito carinho e admiração. Foi uma honra ter-me convidado para este seu espetáculo. Minhas senhoras e meus senhores: Mariza!". Mariza esclarece que este é um dos temas escolhido pelo público, através da internet, incluído no disco extra do seu Best of.

Fotos: João Oliveira/Oporto Agency
Texto: Paula Linhares c/ Oporto Agency


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