Sigur Rós no Campo Pequeno: Música para outro mundo

Acompanhados pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa e pelo Coro Ricercare, os islandeses transformaram o Campo Pequeno numa enorme sala de concertos onde o silêncio, as cordas e a voz de Jónsi foram tão importantes como as explosões sonoras.
Thomas Stone
Miguel Lopes
Há concertos que pedem para cantar, outros para dançar e alguns para simplesmente ficar quieto a ouvir. Os Sigur Rós pertencem claramente ao último grupo.
Quatro anos depois da última passagem pelo Campo Pequeno, os islandeses regressaram ontem à mesma sala, mas desta vez trouxeram reforços de peso: a Orquestra Sinfonietta de Lisboa e o Coro Ricercare, integrados nesta fase final da The Orchestral Tour, digressão em que Jónsi, Georg Hólm e Kjartan Sveinsson se apresentam acompanhados por orquestras locais sob direção de Robert Ames.
Se a música dos Sigur Rós já é habitualmente uma experiência mais próxima de uma viagem do que de um concerto convencional, juntar dezenas de músicos e um coro à equação só podia ampliar tudo. E foi precisamente isso que aconteceu.
"Blóðberg", do mais recente ÁTTA, abriu a primeira parte de um espetáculo dividido em dois atos. Com a banda quase diluída entre a enorme quantidade de músicos em palco, rapidamente ficou claro que aquela não seria uma versão dos Sigur Rós com alguns violinos acrescentados para decoração. A orquestra fazia verdadeiramente parte das músicas.
Em "Ekki múkk" começaram a surgir aquelas longas construções sonoras tão características do grupo, passando de momentos quase impercetíveis para paredes de som onde a guitarra tocada com arco de Jónsi continua a produzir alguns dos ruídos mais estranhamente bonitos que se podem ouvir num palco.
"Fljótavík" e "8" mantiveram o ambiente contemplativo antes de uma viagem até ao primeiro álbum com "Von". E se há bandas que precisam constantemente de comunicar com a plateia para manter um concerto vivo, aqui acontece quase o contrário. Quanto menos acontece entre as músicas, mais facilmente se entra naquele universo onde até alguns segundos de silêncio parecem fazer parte da composição.
A primeira parte ainda passou por "Andvari", "Starálfur", "Dauðalogn" e terminou com "Varðeldur", num crescendo que mostrou como a componente orquestral encaixa naturalmente numa música que sempre viveu algures entre o rock, a ambient e a música clássica.

Depois do intervalo, o regresso fez-se com dois dos momentos mais reconhecíveis de ( ): "Untitled #1 – Vaka" e "Untitled #3 – Samskeyti". Piano, cordas e a voz quase sobrenatural de Jónsi foram suficientes para voltar a colocar milhares de pessoas num silêncio pouco habitual numa arena.
Seguiram-se "Ylur" e "Skel", novamente de "ÁTTA", antes de "Untitled #5 – Álafoss" preparar a parte mais expansiva da noite. A partir de "Sé lest", o concerto começou lentamente a abandonar a contemplação para ganhar dimensão cinematográfica.
E então chegou "Ára bátur".
Um tema que já nasceu praticamente como uma composição orquestral encontrou aqui provavelmente o contexto ideal para ser tocado ao vivo. Banda, orquestra e coro foram crescendo em conjunto até preencherem completamente o Campo Pequeno, naquela fórmula muito Sigur Rós em que uma música parece passar vários minutos a preparar-se para levantar voo e, quando finalmente o faz, leva toda a sala atrás.
Naturalmente, "Hoppípolla" ficou guardada para perto do final. Talvez seja a música que mais gente consegue reconhecer sem conseguir pronunciar uma única palavra e voltou a provocar uma das reações mais imediatas da noite. Depois de mais de duas horas de delicadeza, crescendos e alguma melancolia islandesa, havia finalmente espaço para um pouco de euforia. O alinhamento fechou com "Avalon", mais epílogo do que grande final, deixando o Campo Pequeno regressar lentamente à realidade.
Não houve necessidade de fogo, confettis, bailarinos ou ecrãs gigantes a explicar onde devíamos olhar. Havia três músicos, uma orquestra, um coro e luz suficiente para criar o cenário.
Num tempo em que tantos concertos parecem competir para ver quem consegue colocar mais artifícios em palco, os Sigur Rós fizeram precisamente o contrário: obrigaram milhares de pessoas a parar durante cerca de duas horas e meia para ouvir.
E, atualmente, talvez isso seja um espetáculo ainda mais raro.
Inserido por Redação · 18/09/2026 às 15:09