Black Coffee no Parque Papa Francisco: Quando o pôr do sol acaba na pista


Black Coffee no Parque Papa Francisco: Quando o pôr do sol acaba na pista

Um ano depois de reunir milhares de pessoas no mesmo espaço, Black Coffee regressou ao Parque Papa Francisco para mais uma longa celebração ao ar livre. Desta vez acompanhado por Falyn, Trikk e DJEFF, numa viagem de quase doze horas onde Lisboa voltou a falar com sotaque africano.

📸 Desert Rain Agency 📋 Miguel Lopes

Há cafés que se bebem de manhã. Este começou ao meio-dia e só terminou perto da meia-noite.

Black Coffee regressou este domingo, 27 de setembro, ao Parque Papa Francisco, na Bobadela, para uma nova edição do Lisbon Open Air, novamente pelas mãos da Desert Rain. O formato estava assumido desde o início: não se tratava propriamente de esperar pelo cabeça de cartaz, mas de construir uma pista ao longo de todo o dia. A programação oficial estendia-se das 12h00 às 23h59 e o recinto voltava a ser pensado como um grande espaço de música eletrónica ao ar livre.

E Black Coffee já conhecia bem o terreno.

Um ano antes, o sul-africano tinha levado cerca de 20 mil pessoas ao mesmo parque num evento que terminou igualmente com o seu set. O regresso em 2026 confirmou que aquilo que poderia ter sido uma visita pontual começa a ganhar contornos de relação habitual com Lisboa.

Desta vez, Falyn, Trikk e DJEFF ajudaram a preparar o caminho até ao protagonista da noite. Três escolhas que fazem sentido dentro do universo de Black Coffee, mas suficientemente diferentes para que a tarde não fosse apenas uma repetição da mesma fórmula durante várias horas.

Com Falyn a representar uma geração mais recente do afro house, o português Trikk a trazer uma abordagem mais profunda e menos previsível à eletrónica e DJEFF a ocupar aquele território onde África e Lisboa já há muito deixaram de precisar de apresentação, o Parque Papa Francisco foi lentamente deixando de parecer um enorme terreno junto ao Tejo para se transformar numa pista.

E esse é precisamente um dos segredos deste formato.

Durante o dia há espaço. Há conversas. Há gente sentada. Há quem vá buscar comida, quem encontre amigos e quem aparentemente ainda não tenha decidido se veio para um festival ou para um almoço de domingo que correu demasiado bem.

Depois anoitece.

E tudo muda.

Quando Black Coffee assume a cabine, já não é necessário convencer ninguém de que chegou o momento principal. Nkosinathi Maphumulo construiu ao longo de mais de duas décadas uma linguagem suficientemente própria para que bastem poucos minutos para perceber quem está aos comandos: batidas profundas, percussões africanas, vozes soul que aparecem e desaparecem, melodias que raramente procuram o caminho mais óbvio e aquela capacidade particular de deixar uma música respirar antes de voltar a apertar a pista.

É afro house, naturalmente. Mas reduzir Black Coffee apenas a essa etiqueta seria explicar pouco.

Há deep house, minimalismo, soul e uma noção de espaço que o distingue de muitos DJs habituados a procurar um momento de explosão a cada dois minutos. Black Coffee não parece ter grande pressa. Constrói, desmonta e volta a construir.

E milhares de pessoas acompanham-no.

Vencedor de um Grammy e atualmente uma das figuras africanas mais reconhecidas da música eletrónica internacional, Black Coffee chegou a este estatuto sem abandonar a matriz musical sul-africana que sempre definiu o seu trabalho. Pelo contrário: foi precisamente essa identidade que levou para alguns dos maiores clubes, festivais e palcos do mundo.

No Parque Papa Francisco essa mistura ganhou outra dimensão.

Um open air tem uma relação diferente com a música. Durante a tarde, o céu ainda faz parte da cenografia; à noite, desaparece quase tudo à volta e sobra o palco, as luzes e uma massa de corpos que já deixou há muito de prestar atenção às horas.

Também ajuda que Black Coffee nunca transforme demasiado o DJ em estrela de rock. Está lá em cima, naturalmente, mas o centro continua a ser aquilo que acontece cá em baixo.

A pista.

Talvez seja precisamente essa a diferença entre um conjunto de músicas e um bom DJ set. Não é obrigatório conhecer os títulos. Não existem refrões que toda a gente tenha de cantar. Muitas vezes nem sequer se percebe exatamente onde terminou uma faixa e começou a seguinte.

Só se percebe que passaram duas horas.

E que ninguém saiu do mesmo sítio.

O Lisbon Open Air de 2026 confirmou também o Parque Papa Francisco como uma nova localização de peso para grandes eventos de música eletrónica na zona de Lisboa. O espaço permite aquilo que clubes e arenas dificilmente conseguem oferecer: horizonte, escala e várias horas para que a experiência se desenvolva sem a sensação permanente de estar fechado dentro de quatro paredes.

Black Coffee percebe isso particularmente bem.

Não veio ao Parque Papa Francisco dar um concerto no sentido clássico da palavra.

Veio construir uma noite.

Começou durante o dia.

E quando acabou, já ninguém se lembrava muito disso.