14 anos depois, os The National regressaram ao Vodafone Paredes de Coura: Nacionalidade Norte-Americana, Sentimento Português


14 anos depois, os The National regressaram ao Vodafone Paredes de Coura: Nacionalidade Norte-Americana, Sentimento Português

Noite cerrada, ambiente enevoado e lua cheia. Talvez a combinação perfeita para o retorno da banda norte-americana às margens do Taboão, neste belo lugar como referido por Matt Berninger.

O crescimento da banda é notório, desde que fizeram a sua primeira atuação no mesmo festival em 2005, tendo já uma legião de fãs respeitável.  Portugal é um local onde são sempre bem recebidos, por muitos reconhecidos como quase portugueses carinhosamente adotados e "nossos".

O concerto começou já batia a uma hora da madrugada, sem euforias e histerismos. Abriram com "You Had Your Soul With Me", trabalho inaugural do novo trabalho da banda I am Easy to Find (2019), que conta também com um curto filme da autoria de Mike Mills. Este álbum não é só um álbum musical, é uma colaboração entre cinema e música e marca a evolução dos The National para lá do seu terreno habitualmente fértil que são as canções românticas melancólicas.

Porque um concerto de The National nunca é apenas feito de novas músicas, há que revisitar os clássicos como "Don't Swallow the Cap" de Trouble Will Find Me (2013) ou "Bloodbuzz Ohio" de High Violet (2009), "Guilty Party" e "Day I Die" de Sleep Well Beast (2017).

"Sea of Love" e "Pink Rabbits" de Trouble Will Find Me (2013) chamaram à atenção pelo dramatismo na interpretação. Se a primeira é mais agitada e sentida, a segunda prima pelo tom de balada triste de relação falhada. Algo já constante nos The National que navegam pelos meandros do drama e das emoções negativas das relações e da vida. Matt Berninger é o intérprete mais adequado para corporizar estas canções e transmitir o intimismo necessário à comoção de muitos ouvintes.

A apoteose dos norte-americanos, liderados por Berninger, aconteceu em "Graceless" de Trouble Will Find Me, quando resolveu descer para o público com a sua voz charmosa. Rapidamente foi "engolido" pelos fãs que o abraçaram como se acolhe alguém que evoca algo que nos faz emocionar. Como o vocalista referiu "Good stuff happens on full moons".

No capítulo de canções marcadas pelo dramatismo aparece ainda "Mr. November", única representante do álbum Alligator que apresentaram em 2005 no anfiteatro da Praia Fluvial do Rio Taboão e que apesar dos anos é claramente das músicas com mais impacto tem e com uma referências políticas, que a banda não esconde.

"Fake Empire" de Boxer (2007) aliviou a ânsia por mais um clássico sempre pedido e foi um dos momentos belíssimos da noite, em concorrência renhida com "I Need My Girl" de Trouble Will Find Me (2013) e "About Today" do EP Cherry Tree (2004), esta última entoada como um hino a tempos idos da banda, quase em tom de oração.

Este concerto intimista por excelência fechou com "Vanderlyle Crybaby Creeks" de High Violet (2010) tocada acusticamente como tem sido costume. Um final digno para uma atuação unida aos fãs fiéis.

Berninger e restantes membros são mestres na arte de pintar o desgosto e a languidez, usando para isso o rock emprestado de outros ícones como Joy Division, Leonard Cohen (de quem Berninger é admirador) e Nick Cave. Podem não agradar a todos, mas quem gosta, gosta mesmo e eles sabem que têm em Portugal uma seita de admiradores devotos.

Equipa Noite e Música Magazine no Vodafone Paredes de Coura
Fotografia: Júlia Oliveira
Textos: Gonçalo Neves
Edição: Nelson Tiago