Warm-Up Vodafone Paredes de Coura: o Taboão no coração da cidade portuense


Paredes de Coura (PDC) viajou até ao Grande Porto para duas noites de concertos, pré-festival de verão. A Praça D. João I recebeu nomes como Veronica Falls, Everything Everything (na foto), No Age, Omar Souleyman, Lee Ranaldo e dois nomes bem sonantes do novo rock português, Capitão Fausto e Linda Martini.

Do Alto Minho, veio a alma do festival que dá nome e música àquela pequena vila, para um Warm-Up esgotado – sem relva, sem o calor de agosto e sem anfiteatro a céu aberto mas com a promessa de matar saudades do reportório que envolve Paredes de Coura numa mística que faz chorar por mais.

Às 20h30 em ponto, agrupam-se groupies, fotógrafos, amigos e familiares, casacos de ganga, sapatilhas de pano à skater e óculos para ver bem ao longe, aquando da entrada de Capitão Fausto, em palco. Com um toque de classe e guitarras de tons claros, cantaram-se temas da "Gazela" e dançou-se o ritmo imposto pela magnifica bateria de Salvador Seabra. E cada vez que se pensa que aquela canção acabou, rebenta mais uma bolha de sons coloridos e deixa a malta fixe do Porto, insaciável (e sorridente).

O sol pôs-se de vez e de cerveja na mão, ouviram-se os primeiros acordes do londrinos Veronica Falls. O ano passado, visitaram a cidade do Porto para a primeira edição nacional do Primavera Sound, onde apresentaram o álbum homónimo de 2011. Desta vez, trouxeram na mala "My heart beats" e "Teenage", os dois singles do recente "Wainting for Something to Happen", um álbum mais calmo, sem a urgência condenada do seu antepassado. De uma masculinidade feminina, saem acordes de guitarras corpulentas e casam-se vozes, numa dualidade que balança a luz e o escuro, o amor e o desamor, a tristeza e a alegria. É como se The Smiths tivessem um filho mais novo, em crescimento, em busca pela felicidade. Baloiçavam-se os corpos, dedicavam-se canções a quem vestia t-shirts giras e rasgavam-se notas musicais até à despedida.

De Leeds, foi oferecido um presente da cena punk rock britânica, a comando de David Gedge. The Wedding Present, foram os veteranos no primeiro dia deste exercício de aquecimento musical. Pela noite dentro, as sonoridades iam ficando mais pesadas, com guitarras a ferver, numa erupção para lá das palavras cantadas por Gedge. Considerado por muitos, o compositor de algumas das melhores canções de amor dos bons tempos do Rock ‘n’ Roll, David Gedge estava ali para ensinar, como contador de histórias para os jovens entusiastas nas primeiras filas. E apesar de todos os membros perdidos e restituídos ao longo dos anos, vasculharam-se discos de uma longa carreira, de "Bizarro" até "Valentina", editado em 2012, e entoaram-se temas como "Kennedy", sobre amor, vingança e tarte de maçã, "There’s always something left behind", "Bewitched" e "You Jane". "Hope to see you all, soon" parece uma promessa a cumprir do  frontmen em nome da banda e quem sabe não acontecerá, mais perto do que se pensava.

A noite não cessou a força da cena musical vinda de Inglaterra, desta vez com a apresentação estridente, ambiciosa e dançante de Everything Everything. Ouviam-se conversas entre o público sobre o quão parecido era o vocalista Jonathan Higgs do baixista dos The XX, Oliver Sim…claro está que tais comparações eram feitas do meio do público para trás. Sem querer etiquetar bandas a um só género musical (mas sem conseguir evitar fazê-lo), Everything Everything são uma mescla de Alt-J, Animal Collective e Vampire Weekend, em representação de tudo o que o indie atual é.

Desde 2007, as sonoridade dos jovens de Manchester mudou drasticamente e toda a sua metamorfose deixou a plateia à beira de um ataque de nervos por temas como "Cough Cough" e "Kemosabe", ambos do disco "Arc" (2012). Tudo soa a elemento de precursão, com guitarras subliminares e montanhas-russas vocais. São tão épicos que se torna impossível criar coreografias, com todas as variações melódicas, os trocadilhos e as explosões sonoras. "Obrigado Porto" fez soltar os primeiros gritos e aplausos generalizados, que lembraram os dias de calor na praia fluvial do Tabuão – sorte a de quem considera este, um concerto a repetir; na edição do PDC deste ano (de 13 a 17 de agosto), Everything Everything irão voltar a tocar, com todo o seu charme agudo.

Passava da meia noite, doíam as pernas e as t-shirts já colavam ao corpo mas o melhor e mais agressivo estava para vir. A malta dos casacos de cabedal, brota do público, para dar as boas vindas a No Age. De Los Angeles à Invicta, aterrou o duo de punk experimental pronto para rebentar a escala de entusiasmo. O guitarrista Randy Randall e o baixista/baterista/vocalista Dean Allen Spunt tocaram sem papas na língua, de forma bárbara, selvagem, energética, num caos que levou ao moche transpirado, onde até Francisco Ferreira (o homem das teclas dos Capitão Fausto) andou em piruetas. Tocava-se baixo com um baqueta a bater nas cordas, tocava-se bateria até ao desassossego e a guitarra fez uma visita às filas da frente, para uma colaboração inesperada, que deixou os seguranças à beira de um ataque de nervos. Os clássicos "Everybody’s Down", "Fever Dreaming" e "Glitter" fizeram parte da banda sonora do concerto mais ruidosamente festejado, da noite. Os No Age sabiam bem quando disseram, "The outcasts in the world, know something very important".

Vestiram-se os agasalhos e saiu-se tenda fora, a caminho do descanso (ou do continuar da festa) e repor de energias para o segundo dia de "aquecimento" Paredes de Coura.

Dia 13 de abril, o segundo dia de Warm-up, tinha prometido um cartaz diverso, em géneros e nacionalidades, quase como se o palco eletrónico e secundário do costume, se tivessem juntado ao principal. Um 3 em 1 que começa com a presença do quarteto Sensible Soccers – projeto que começou com malta da RUC (Radio Universidade de Coimbra), Emanuel Botelho e Hugo Alfredo. Portugueses que "jogam um futebol" minimalista e sensível que nos desperta vários sentidos e faz-nos viajar em universos paralelos.

Seguiram-se as três miúdas sob a alçada da Rough Trade, para tocarem um indie com amaciador para o coração. Stealing Sheep apresentaram "Into the diamond sun",  de setembro de 2012, que guarda músicas de um pop do-it-yourself (diy), com uma pitada de rock e a harmonia eletrónica. E com a maior glória de caloiras, Becky, Emily e Lucy roubaram a atenção de alguns membros do público ao tocarem temas como "Genevieve", "Rearrange" e "I am the rain".

A equipa técnica voltou ao palco para fazer as mudanças de cenário e instrumentos, desta vez para o regresso dos Linda Martini à casa Paredes de Coura. O primeiro concerto do ano, para a banda querida do público, contou com temas de sempre, os clássicos que fizeram gritar letra a letra e levantar os telemóveis para os "mais que tudo" ouvirem a serenata.

A noite contava com um público mais composto e debaixo de luzes vermelhas, os amplificadores rugiam de fúria e nostalgia. "Dá-me a tua melhor faca" e  "Amor Combate" pôs os corações do Porto, ao alto, e levou Hélio Morais a dizer "isto podia ser conversa mas não é, vocês são do c******". Descomprometidos e sinceros, levaram a legião de fãs e os que foram apanhados de surpresa pela locomotiva instrumental, a cantar até os pulmões saírem da boca e em "Cem metros de Sereia", até as lágrimas vieram ao olhos. Para este ano espera-se, com muito amor, um novo disco. A plateia fez de tudo para prender a banda em palco mas o tempo tinha passado. Ficou para lembrar, mais um típico e sedutor concerto à lá Linda Martini.

De guitarras arrecadadas, construiu-se um cenário com um par de órgãos, que fez companhia ao sírio mais internacional da onda eletrónica, Omar Souleyman. Em 2011, o PDC lá mais a norte, fez a festa ao ar livre. Desta vez, o Médio Oriente veio até ao Porto, para uma festa de ritmo e sintetizadores orientais. As primeiras filas representam o estado de loucura que se espalhava, um pouco por toda a parte. Para quem tinha dúvidas que a música ia além da barreira linguística, Omar destruiu o mito, numa sala de festivaleiros bailarinos que não falhavam aos seus chamamentos. Souleyman foi protagonista de uma celebração intensa, de sonoridade excêntrica, que trouxe a música kurdish e a alma da Síria pré-destrutiva, a terras lusas.

De volta à essência do rock, ouvimos a guitarra de Lee Ranaldo em melodias que sugam o ouvido para o repertório Sonic Youth. Um dos homens fortes do rock alternativo tinha, com outros sentimentos e estado de espírito, de ultrapassar o entusiasmo de retorno, que o público deu aos artistas anteriores. "Between the Times and the Tides", o  seu nono disco a solo, foi revisitado do inicio ao fim com "Of the Wall", que conta as razões e intensões de uma carreira pós-banda, um "take me as I am" que Ranaldo canta com a maior naturalidade; "Xtina as I Knew Her", lembra os 16 anos, as experiências com diferentes pessoas e diferentes coisas, na casa de uma amiga onde se viviam momentos típicos da juventude. Steve Shelley, o baterista também Sonic Youth, foi marcando o compasso atrás dos veteranos que ensinavam rock aos miúdos, neste aquecimento. "Hammer Blows" e o tema inspirado no movimento Occupy Wall Street, "Shout" gritaram a vida que há para além do passado.

O final da noite foi deixado a cargo de Matias Aguayo. Em frente aos resistentes, num turbilhão de géneros que coabitam na perfeição, o DJ de Santiago do Chile tocou até a hora da despedida. Ao vivo e a cores, o house e techno de sabores latinos, foram-se difundido noite dentro.

Ainda na primavera, abre assim a época festivaleira com um acalmar de saudade musical e aquecer de músculos. Em agosto há mais!

Fotos: Nuno Fangueiro
Texto: Sara Fidalgo


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