YAIMA na TEJÁ House: Quando um concerto se transforma numa viagem


Na primeira passagem por Lisboa, YAIMA encontrou na intimidade da TEJÁ House o cenário quase perfeito para a sua mistura de eletrónica orgânica, instrumentos acústicos e espiritualidade. Numa noite de Halloween onde o convite era aparecer como uma "criatura mágica", Pepper Proud e Masaru Higasa trocaram o espetáculo tradicional por algo muito mais próximo de uma viagem coletiva.

📸 YAIMA 📋 Miguel Lopes

Há concertos onde chegamos à sala, olhamos para o palco e esperamos que comece a música.

Na TEJÁ House, na passada sexta-feira, 30 de outubro, a sensação começava antes.

Talvez tenha ajudado ser Halloween. Talvez tenha ajudado o dress code sugerir "criaturas mágicas". Ou talvez seja simplesmente difícil entrar naquele espaço junto ao Tejo e esperar encontrar um concerto convencional de YAIMA.

Não foi.

A noite integrou a série TEJÁ VU, prolongando-se oficialmente das 20h30 às 02h00, e marcou, segundo o Songkick, a primeira atuação do projeto em Lisboa. Uma estreia num espaço bastante mais íntimo do que as arenas e grandes salas que normalmente dominam a agenda musical da cidade.

E neste caso isso fez toda a diferença.

YAIMA é o projeto criado por Pepper Proud e Masaru Higasa, dupla sediada em Seattle que há mais de uma década constrói uma música difícil de colocar numa única gaveta. Há eletrónica, folk, ambient, percussões orgânicas, instrumentos vindos de diferentes tradições e uma voz que parece muitas vezes flutuar por cima de tudo o resto.

No centro está Pepper Proud.

Não propriamente como uma vocalista que precisa constantemente de dominar o palco, mas quase como guia de uma paisagem sonora que se vai construindo lentamente à sua volta. A voz surge limpa, delicada e suficientemente próxima para que, numa sala destas dimensões, desapareça rapidamente a distância habitual entre artista e público.

Ao lado, Masaru Higasa constrói grande parte do universo YAIMA.

Instrumentos acústicos convivem com produção eletrónica, ritmos programados e texturas que tanto podem aproximar-se de uma cerimónia como de uma pista de dança em câmara lenta. É uma mistura que, escrita no papel, poderia facilmente cair naquela zona perigosa onde "música espiritual" começa a significar música de elevador para retiros de yoga.

Ao vivo acontece outra coisa.

Há corpo.

Há graves.

E há momentos em que a música deixa claramente de pedir contemplação e começa a pedir movimento.

A própria organização apresentava a noite como um encontro entre "ritmos orgânicos", produção eletrónica e instrumentos de diferentes pontos do mundo, num evento assumidamente sober-forward e centrado na música. Não havia, portanto, grande interesse em reproduzir o modelo clássico da noite de Halloween onde tudo serve apenas de pretexto para uma festa.

Aqui a música era a festa.

E também o ritual.

Essa palavra aparece frequentemente quando se fala de YAIMA e, normalmente, convém ter algum cuidado com ela. Nem tudo o que tem incenso, luz baixa e um tambor é automaticamente uma experiência transcendental.

Mas a proximidade da TEJÁ House ajudou a tornar a proposta credível.

Em vez de um enorme palco a separar músicos e audiência, havia uma sala que permitia observar pequenos gestos, sentir as alterações de dinâmica e perceber melhor a forma como as camadas eletrónicas se vão acumulando sobre os elementos acústicos.

Por momentos havia pessoas simplesmente de olhos fechados.

Noutros, corpos começavam a mexer-se.

Não parece existir uma instrução muito rígida sobre o que devemos fazer com esta música. E talvez seja precisamente esse um dos seus maiores méritos.

YAIMA também chegou a Lisboa num momento particularmente interessante da sua história. Em junho editaram "AETHER (Intended for Psychedelic Journeys)", um trabalho de dez temas concebido, como o próprio título indica, dentro dessa ideia de viagem sonora e exploração de estados interiores. É mais um capítulo numa discografia que desde Pellucidity, de 2014, tem utilizado água, vento, fogo e terra como elementos recorrentes.

É fácil perceber porque esta música encontrou público nos universos da meditação, ecstatic dance, festivais transformacionais e práticas ligadas ao corpo e à consciência.

Mas reduzi-la a isso também seria injusto.

Há produção suficientemente cuidada, ritmo e construção musical para funcionar sem qualquer necessidade de acreditar em chakras, energias ou portais cósmicos.

Pode-se simplesmente ouvir.

Ajuda.

A meio daquela combinação de voz, eletrónica e instrumentação orgânica, a TEJÁ House parecia ter-se afastado um pouco do Cais do Sodré. Lá fora continuava Lisboa, numa sexta-feira de Halloween, com bares cheios e gente a decidir onde seria a próxima festa.

Lá dentro, o tempo decorria de outra maneira.

É talvez essa a maior força de YAIMA ao vivo.

Não necessariamente as músicas individualmente, nem um grande momento de explosão destinado aos vídeos de quinze segundos nas redes sociais.

É a continuidade.

Uma música desemboca noutra, os ambientes respiram e o espetáculo começa lentamente a parecer menos uma sequência de temas do que uma única peça longa.

Não houve fogo.

Não houve confettis.

Não houve um ecrã gigante.

Nem fizeram falta.

Por vezes basta uma sala pequena, algumas dezenas de pessoas disponíveis para ouvir e dois músicos suficientemente pacientes para não terem medo do silêncio entre os sons.

Na noite de Halloween, YAIMA veio a Lisboa falar de natureza, transformação e ligação.

A TEJÁ House tratou do resto.

E durante algum tempo, ninguém pareceu ter muita pressa de voltar lá para fora.