Fontaines D.C. na MEO Arena: O desconforto também enche arenas


Fontaines D.C. na MEO Arena: O desconforto também enche arenas

Os Fontaines D.C. escolheram Lisboa para iniciar a nova digressão europeia e apresentar Dopamine Chamber, editado apenas cinco dias antes. Perante uma MEO Arena cheia, os irlandeses mostraram uma banda maior, mais eletrónica e cinematográfica, mas ainda suficientemente inquieta para não se sentir demasiado confortável dentro de uma arena.

📸 Tiago Cortez 📋 Miguel Lopes

Há uns anos seria relativamente difícil imaginar os Fontaines D.C. aqui.

Não por falta de qualidade ou ambição, mas porque aquela urgência quase claustrofóbica de Dogrel, com as guitarras sujas, o sotaque carregado de Grian Chatten e histórias de uma Dublin pouco interessada em aparecer nos postais turísticos, parecia pertencer mais a clubes escuros do que a uma das maiores salas do país.

Na noite de quarta-feira, 21 de outubro, estavam na MEO Arena.

E a sala parecia-lhes servir bastante bem.

Lisboa foi escolhida para abrir a digressão europeia de Dopamine Chamber, o quinto álbum dos irlandeses, lançado apenas no dia 16 de outubro. O concerto trouxe 19 temas, oito deles pertencentes ao novo disco, numa noite que funcionou tanto como apresentação de uma nova fase como confirmação de até onde a banda chegou nos últimos anos.

Antes deles, os Chalk, vindos de Belfast, tiveram cerca de 25 minutos para começar a aquecer uma Arena ainda em enchimento. Eletrónica, guitarras e bateria criaram um ambiente mais próximo de um clube industrial do que da habitual primeira parte de um concerto de rock. Uma escolha que, olhando para a direção cada vez mais eletrónica dos próprios Fontaines D.C., acabou por fazer bastante sentido.

Pouco depois das 21 horas, Grian Chatten apareceu de pandeireta na mão e "Boys in the Better Land" atirou imediatamente a sala para 2019.

Foi também praticamente a única visita aos primeiros tempos.

Seguiram-se "Here's the Thing" e "Nabokov", antes de "Marianne" e "Tongue" apresentarem oficialmente Dopamine Chamber a Lisboa. Curiosamente, apesar de o álbum ter apenas cinco dias, havia já muita gente preparada para acompanhar as letras.

Também o cenário deixava claro que alguma coisa mudou.

Uma enorme superfície prateada e ondulada ocupava o fundo, o chão refletia a iluminação e, suspenso sobre a banda, o logótipo gótico "f.d.c." ia mudando de cor. Rosa, verde, azul, branco. Poucos elementos, mas suficientes para transformar o palco numa espécie de instalação metálica e futurista. Menos pub de Dublin. Mais distopia para milhares de pessoas.

"Jackie Down the Line" voltou a acelerar a plateia, seguindo-se "You Miss Me" e depois um bloco mais melancólico com "Roman Holiday", "In the Modern World" e "Happy for You".

Esta última foi apresentada por Chatten, sem demasiados rodeios, como uma "fucking sad song".

É difícil discutir com ele.

Mas foi sobretudo "In the Modern World" que mostrou a estranha dimensão que os Fontaines D.C. atingiram. Uma canção relativamente recente cantada por uma arena praticamente inteira, enquanto Chatten parecia visivelmente emocionado perante a resposta do público.

O vocalista continua, aliás, a ser uma figura pouco convencional para uma banda desta dimensão.

Não há grandes discursos motivacionais, pedidos constantes para bater palmas ou aquele manual invisível do frontman de estádio. Chatten movimenta-se pelo palco de forma nervosa, dobra-se sobre si próprio, aproxima-se da pequena passerelle que entra pela plateia e, muitas vezes, parece estar mais interessado em sobreviver às próprias canções do que em comandar milhares de pessoas.

Talvez seja precisamente por isso que as comanda.

"Big Shot" voltou a aumentar a pressão, seguindo-se "Mimesis", "Bug" e "Favourite", esta última recebida como um daqueles temas que, apesar de relativamente recentes, já ganharam estatuto de clássico dentro do repertório da banda.

E houve política.

Durante "Big Shot", Chatten colocou um keffiyeh ao pescoço e terminou com um "Free Palestine". Mais tarde, em "Where Is Gone?", colaboração com Rosalía no novo álbum — mas sem a espanhola presente em Lisboa — apareceu envolvido numa bandeira palestiniana. A posição política não foi transformada num longo discurso. Bastaram as imagens e duas palavras.

Depois desapareceram.

E demoraram algum tempo a regressar.

Quando finalmente voltaram para o encore, encontraram uma MEO Arena iluminada pelos telemóveis. Chatten explicou a espera com humor: precisava de confirmar se a voz ainda funcionava.

Funcionava.

"Japan" abriu os últimos minutos, antes de "I Love You" provocar um dos maiores coros da noite. Seguiu-se "Starburster", com aquela respiração ofegante a espalhar-se pela arena e a plateia novamente em movimento.

Seria a escolha óbvia para terminar.

Por isso, naturalmente, não terminaram aí.

Coube a "Six Shot Morning", tema que abre Dopamine Chamber, fechar o concerto. Sintetizadores, luzes quase cinematográficas e uma tensão progressiva substituíram a explosão tradicional de final de espetáculo. Em vez de acabarem com a canção que toda a gente esperava, os Fontaines D.C. despediram-se apontando precisamente para o lugar onde querem chegar a seguir.

E talvez essa tenha sido a melhor definição da noite.

Os Fontaines D.C. já não são apenas aquela banda pós-punk de Dublin que apareceu em 2019 a cantar sobre a própria cidade. Romance já tinha aberto portas para outras linguagens e Dopamine Chamber empurra-as ainda mais: sintetizadores, ambientes mais frios, produção maior e músicas claramente capazes de ocupar espaços desta dimensão.

Podiam ter aproveitado a primeira MEO Arena para olhar para trás e desfilar tudo aquilo que os trouxe até aqui.

Nem sequer tocaram uma música de A Hero's Death.

Preferiram olhar para a frente.

As salas ficaram maiores.

O desconforto continua lá.

Alinhamento Fontaines D.C.,  MEO Arena, 21 de outubro

Boys in the Better Land
Here's the Thing
Nabokov
Marianne
Tongue
Jackie Down the Line
You Miss Me
Roman Holiday
In the Modern World
Happy for You
Big Shot
Mimesis
Bug
Favourite
Where Is Gone?

Encore:
Japan
I Love You
Starburster
Six Shot Morning