Placebo no Campo Pequeno: 30 anos depois, a adolescência ainda dói

Três décadas depois do álbum que os apresentou ao mundo, os Placebo regressaram a Lisboa para olhar quase exclusivamente para os primeiros anos da carreira. Num Campo Pequeno esgotado e praticamente sem telemóveis no ar, Brian Molko e Stefan Olsdal mostraram que algumas canções envelheceram. Outras simplesmente cresceram connosco.
Mónica Joady
Miguel Lopes
Há bandas que celebram 30 anos mostrando tudo o que fizeram entretanto.
Os Placebo decidiram fazer quase exatamente o contrário.
Na noite desta terça-feira, 29 de setembro, regressaram ao Sagres Campo Pequeno para procurar o lugar onde tudo começou, construindo um concerto quase inteiramente a partir de Placebo, de 1996, e Without You I'm Nothing, de 1998. Dois discos, 30 anos de distância e uma sala esgotada onde boa parte do público provavelmente já não tem a idade que tinha quando descobriu Brian Molko pela primeira vez.
Mas antes da música houve uma regra: guardem os telemóveis.
Os Placebo já tinham deixado isso bastante claro na noite anterior, no Porto, onde alguns espectadores chegaram mesmo a ser retirados da sala depois de insistirem em filmar. Para Lisboa aplicavam-se as mesmas indicações. Num tempo em que há frequentemente mais ecrãs levantados do que braços, o resultado foi curioso: durante boa parte do concerto voltou a ser possível ver o palco sem ter de o fazer através do telefone da pessoa da frente.
Parece pouco, mas, em 2026, quase soa a revolucionário.
Depois da primeira parte assegurada por Elisabeth Elektra, os Placebo entraram às 21 horas e não perderam muito tempo com introduções. "Pure Morning" abriu a noite e, mal surgiu aquele riff, ficou imediatamente claro qual seria a proposta: durante cerca de uma hora e quarenta e cinco minutos, o presente iria ficar estacionado à porta.
Vieram "Come Home", "You Don't Care About Us" e "Teenage Angst" numa sequência que parece quase uma pequena cápsula do tempo para o final dos anos 90.
Só que o tempo passou.
Brian Molko já não é o jovem de cabelo preto e eyeliner que aparecia nas revistas a desafiar a estética masculina do britpop. Stefan Olsdal também não. E, olhando para a plateia, muitos dos que cresceram com eles obviamente também não.
As canções, essas, parecem importar-se pouco.
"Bionic" continuou a soar nervosa e abrasiva e "Without You I'm Nothing" trouxe um dos primeiros momentos em que o Campo Pequeno deixou de ser apenas uma sala cheia para se transformar num coro. Seguiram-se "Allergic (to Thoughts of Mother Earth)" e "36 Degrees", confirmando que esta digressão não pretende ser simplesmente um desfile dos singles mais óbvios da carreira. Há aqui espaço para recuperar canções que passaram muitos anos longe dos palcos. A 30th Anniversary Tour, que arrancou em Portugal, foi precisamente apresentada pela banda como um reencontro com estes dois primeiros discos.
E isso também significou algumas ausências.
Quem esperava "The Bitter End", "Special K", "Meds" ou "Song to Say Goodbye" teve de aceitar que esta não era essa noite.
Esta noite pertencia essencialmente a 1996 e 1998.
"I Know", "Brick Shithouse" e "Scared of Girls" mantiveram o concerto num território mais cru, antes de "My Sweet Prince" baixar as rotações e recordar que os Placebo sempre souberam ser tão desconfortáveis na fragilidade como no ruído.
Seguiu-se "Lady of the Flowers", regressada ao palco nesta celebração dos 30 anos, antes de uma pequena visita a 2026 com "Helen Keller", o novo tema construído a partir de uma ideia musical que remonta precisamente às sessões do primeiro álbum. Uma espécie de música nova com trinta anos escondidos lá dentro — o que, pensando bem, faz dela a canção perfeita para esta digressão.
Mas era difícil competir com aquilo que vinha a seguir.
"Bruise Pristine" devolveu força ao Campo Pequeno e "Nancy Boy" fechou o alinhamento principal com uma descarga de energia que mostrou como uma canção lançada em 1997 ainda consegue provocar uma reação quase instantânea três décadas depois.
Foi também impossível não sentir alguma ironia.
Uma música que ajudou a construir a imagem provocadora, sexualmente ambígua e desconfortável dos primeiros Placebo é agora cantada por milhares de pessoas que envelheceram com ela. O choque transformou-se em clássico.
O encore começou com "Every You Every Me", provavelmente o momento em que passado e presente se encontraram de forma mais evidente. Não era necessário pedir para cantar. O Campo Pequeno já sabia o que fazer.
Ainda houve duas versões para fechar a noite: primeiro "I Feel You", dos Depeche Mode, e finalmente a leitura de "Running Up That Hill (A Deal With God)", de Kate Bush, que os Placebo transformaram há muito numa música quase tão associada ao seu universo como ao original.
Às 22h45 estava terminado um concerto de 19 temas e quase duas horas que evitou deliberadamente contar toda a história dos Placebo.
Preferiu contar apenas o princípio.
Talvez porque os aniversários redondos tenham sempre qualquer coisa de estranho. Obrigam-nos a olhar para fotografias antigas, para versões de nós próprios que já não existem e para músicas que julgávamos pertencer a outra época.
Depois começam os primeiros acordes de "Pure Morning".
E afinal trinta anos não parecem assim tanto.
Inserido por Redação · 30/09/2026 às 17:08