Ronnie Wood no Coliseu de Lisboa: Seis décadas de rock sem precisar de olhar para o retrovisor

Aos 79 anos, Ronnie Wood regressou a Lisboa para percorrer uma carreira que atravessa Faces, Rolling Stones, blues e uma longa história a solo. No Coliseu dos Recreios não houve grandes efeitos especiais. Houve guitarras, uma banda de luxo e rock tocado como deve ser.
Tom Koenig, Mick de Jong, Paul Dixon
Miguel Lopes
Há músicos que chegam aos 79 anos rodeados pela inevitável palavra "lenda". E depois há Ronnie Wood, que parece preferir não perder muito tempo a pensar no assunto e simplesmente pegar numa guitarra.
Foi mais ou menos isso que aconteceu na passada segunda-feira, 14 de setembro, quando o guitarrista dos Rolling Stones subiu ao palco do Coliseu dos Recreios para celebrar seis décadas de carreira com a Fearless Tour, acompanhado pela sua banda e pelas vozes de Imelda May e Chanel Haynes. A sala não estava esgotada e alguns lugares vazios eram visíveis numa plateia onde os bilhetes chegaram aos 195 euros, mas quem apareceu encontrou um concerto com muito pouco de cerimónia nostálgica.
Cerca de quinze minutos depois da hora marcada, Wood entrou em palco e explicou, com humor, que tinham esperado um pouco por quem ainda estava a chegar. Mas o rock não espera eternamente por ninguém e "It's Only Rock 'n' Roll (But I Like It)" foi uma escolha quase demasiado óbvia para começar. Também por isso, perfeita.
Seguiram-se "Am I Grooving You", com Wood a trocar momentaneamente as seis cordas pela harmónica, e "Take It Easy", antes de Chanel Haynes assumir o protagonismo em "Flying", dos Faces. E se alguém tinha comprado bilhete apenas para ouvir "o guitarrista dos Rolling Stones", rapidamente percebeu que aquela noite pretendia contar uma história bastante maior.
Porque antes dos Stones já existiam os Jeff Beck Group e os Faces. E paralelamente aos Stones existiu sempre Ronnie Wood, músico a solo, homem do blues, do rhythm and blues e de um rock que nunca teve particular interesse em manter as fronteiras muito arrumadas. A própria digressão surge na sequência de Fearless: The Anthology 1965–2025, lançada no ano passado como um percurso por seis décadas de música.

"Hey Negrita" trouxe os Rolling Stones novamente à sala, seguida de "Seven Days", de Bob Dylan, antes da entrada de Imelda May mudar a dinâmica do palco. Em "Remember (Walking in the Sand)", May e Chanel Haynes não se limitaram ao papel de acompanhantes de luxo: deram voz, presença e algum teatro a uma noite até então dominada pelas guitarras.
Vieram ainda "You're So Fine", "Baby What You Want Me to Do" e "Show Me", esta última conseguindo finalmente aquilo que as cadeiras da plateia tinham dificultado durante parte do concerto: pôr gente de pé. Por momentos, o Coliseu começou a parecer mais uma sala de rock e menos um auditório disciplinado – para algum desespero dos seguranças.
Wood regressou depois ao seu primeiro álbum a solo com "Mystifies Me", antes de Chanel Haynes voltar a ocupar o centro em "River Deep, Mountain High". Em "Country Honk" juntou-se uma violinista à banda, numa sequência que desembocou em "Chain of Fools", "Boogie Disease" e "Spoonful", esta última com Imelda May. O blues, afinal, esteve sempre ali por baixo de tudo.
E houve ainda tempo para regressar aos Faces com "Ooh La La", antes de uma das grandes descargas da noite: "Can't You Hear Me Knocking", dos Rolling Stones.
Mais do que uma sucessão de clássicos, o concerto funcionou como uma viagem por diferentes vidas do mesmo músico. Ronnie Wood não tentou competir com a produção gigantesca dos Stones nem transformar o Coliseu num estádio em miniatura. O cenário era simples, a atenção estava nos músicos e a principal atração continuava pendurada ao pescoço do protagonista.

No encore, um medley juntou "Dust My Broom", "Black Limousine" e "Gasoline Alley", já com boa parte do público finalmente junto ao palco. E coube a "Stay With Me", dos Faces, fechar cerca de duas horas de concerto.
Aos 79 anos, Ronnie Wood já não precisa de provar que pertence à história do rock. Talvez por isso tenha passado a noite sem grande preocupação em fazê-lo.
Pegou na guitarra e tocou.
Às vezes chega.
Inserido por Redação · 16/09/2026 às 16:31