Misty Fest: Mayra Andrade no Coliseu do Porto [fotos + texto]


Misty Fest: Mayra Andrade no Coliseu do Porto [fotos + texto]

Numa noite aparentemente chuvosa, onde o frio se entranhava em cada corpo que pairava na Rua Passos Manuel à espera de entrar no Coliseu,  e que com o passar do tempo se conjugava com a fervorosa ansiedade de ver Mayra Andrade pisar aquele palco.

Foi com o soar das partículas musicais de "A-mi N Kre-u Txeu" seguido de "Ilha de Santiago" num ritmo balançado que o espetáculo deu início perante uma plateia tímida. Mayra apresentava desta forma o seu mais recente disco Lovely Difficult (2013) aliado ao Navega (2007), com um novo arranjo musical, mais maduro e efusivo com acordes a invocar o pop com ligeiras nuances do rock contemporâneo, misturado com jazz, uma pitada de reggae acompanhada pelas sonoridades cabo-verdeanas invocando de certa forma as "batucadeiras" da Cidade Velha de Santiago.

Do francês até ao crioulo cabo-verdiano, iam-se ouvindo músicas como "Les Mots D’Amour" e "Tunuka" onde o ferro virou mestre de palco nas mãos de Mayra ao suportar aquele pedaço de metal juntamente com uma faca.

Entre o funaná e a doce morna que nos faziam navegar de olhos fechados pelas ruas de Santiago, acordando de um sonho utópico para visualizar as raízes da morabeza cabo-verdeana. "Ténpu ki Bai" uma música tão sentida que Mayra decidiu escrever para expressar que o tempo leva quase tudo, deixando somente as memórias e a saudade – "…Antes dos 30 anos comecei a pensar nessas coisas". E foi neste momento musical que surge uma voz tão singular já conhecida – Sara Tavares – deliciando o espetro auditivo de cada um dos presentes. Num duelo sem guerra, onde as duas saíram vencedoras, lado a lado na interpretação de "Minha Estrela Mãe", enquanto Sara suportava uma guitarra clássica no colo e iam conjugando as vocalizações tão peculiares transmitindo uma sensação de paz e pura felicidade.

"O meu pai ficou muito chateado por não ter pego no violão com mais seriedade. Escrevo as minhas músicas no violão mas sou um bocado distraída. Enfim… Fui numa loja comprar aquelas coisas que se usam na parede para pendurar a guitarra. Tinha mais ao menos 12 anos e fui àquela loja e disse – "Mãe, olha a Sara Tavares nesta fotografia.", e a Sara já era Sara Tavares na altura." – à qual a artista convidada responde num tom de brincadeira – "Isto é só para me fazer sentir mais cota." A risota instalada na sala deixou perdurar as pequenas histórias que a cantora ia revelando no decorrer do concerto.

Se em Lisboa cheira bem, "Alfama" fazia-se sentir na voz de Pedro Moutinho e de Mayra, acompanhados pela charmosa guitarra portuguesa e a ritmada guitarra clássica, deixando o fado se aliar num concerto cheio de mestiçagem sonora.

E se achavam que cantar desafinado era um problema, eis que a pedido de Mayra, depois de um mini ensaio, o Coliseu foi preenchido com a sincronização das palmas aliada às vozes que entoavam "Rosa" e "Tera Lonji" num tom tropical.

Acompanhada pela sua banda – Rémi Sanna (bateria), Nicolas Liesnard (teclas), Franck Orosemane (baixo) e Nenad Gajin (guitarra) termina o espetáculo com "Meu Farol" – a única música escrita em português à qual dedicou à sua mãe – e "Lua". Quem passou pelo Coliseu nesta noite ficará eternamente "lapidu na kel minina" de voz doce e poética e com a sua presença radiante e cativante.

Mayra Andrade finaliza assim, com os concertos no Misty Fest, mais uma tournée que se estendeu durante 2 anos e que abraçou mais de 100 concertos por ano. Comemorando a sua vinda de Paris para permanecer em terras lusitanas contemplando o esplendor do povo, de uma nova riqueza cultural, como fonte de inspiração para a sua carreira.

Alinhamento
A-mi n kre-u txeu
Ilha de Santiago
Trés Mininu
Simplement
Les Mots D’Amour
Tunuka
Ténpu Ki Bai (Tavares)
Minha Estrela Mae (Tavares)
We Used To Call It Love
Dimokransa
Alfama (Pedro) Acoustic
Rosa
Build It Up
Comme S’Il En Pleuvait
Tera Lonji

Encore
Meu Farol
Lua

Fotos: Carina Guilherme
Texto: Camila Câmara


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