Caixa Ribeira: Invicta Menina e Moça


Caixa Ribeira: Invicta Menina e Moça

E como o fado não se canta só em Lisboa, o Porto recebeu mais uma vez o festival Caixa Ribeira. Durante dois dias, as ruas da Ribeira foram inundadas pelos acordes das guitarras portugueses e por vozes que tão bem representam o nosso fado.

O Caixa Ribeira é o festival que faz os grandes fadistas subirem ao Norte e que faz os amantes do fado saírem à rua para com eles cantarem o novo e o antigo e mostrarem que o Porto tem boa voz. Os concertos tomaram vários lugares: o Palácio da Bolsa, o mercado Ferreira Borges, A Igreja de São Francisco e o Palco Caixa foram os anfitriões para os maiores nomes do festival.

Silêncio que se vai cantar o fado.

Com meia hora de atraso, arrancou, no dia três de junho, o primeiro concerto da noite no Palco Caixa. António Chaínho convida Mafalda Arnauth e Paulo de Carvalho e juntos trazem ao festival um belo espetáculo onde os momentos mais aclamados foram apontados pelo veterano Paulo de Carvalho que nos relembrou a "Menina e Moça", "Os Putos" e ainda nos levou à volta da fogueira.

António Chaínho convida Mafalda Arnauth e Paulo de Carvalho

E se na Igreja de São Francisco, Maria da Fé já cantava, também Pedro Moutinho ocupava o seu tempo no Pátio das Nações do Palácio da Bolsa, o único problema é que António Zambujo também ficou para essa hora o que dirigiu o público mais para o Palco Principal.

Maria da Fé

Pedro Moutinho

António Zambujo não largou a guitarra e durante mais de meia hora cantou vários temas, entre os quais o seu "Zorro". Pôs o público a cantar com o tão conhecido "Nem às paredes confesso" e apesar de ter trazido o esperado "Pica do 7" deixou a "Lambreta" fora do alinhamento. Mesmo deixando uma das favoritas de fora, o cantor não saiu do palco sem ouvir uns piropos das nossas portuenses autênticas.

António Zambujo

Ana Moura foi o último nome desta primeira noite de fado. Subiu ao palco com 40 minutos de atraso e apresentou-se com o seu "Moura Encantada" seguindo-se "O meu amor foi para o Brasil". O fado no século XIX era dançado e como "se o fado se chora e se canta, também se pode dançar", a cantora trouxe o "Fado Dançado" à noite, tema escrito por Miguel Araújo.

Ana Moura

Depois do momento em que os protagonistas foram os músicos que a acompanharam, a cantora interpretou a "Maldição", um tema de Ângelo Freire cantado apenas com a guitarra portuguesa trazendo a tradição do fado ao palco. Já na reta final, passou pelos "Olhos de Deus" de Pedro Abrunhosa e pelo conhecido "Dia de Folga" e depois da primeira despedida voltou para emocionar com a "Loucura".

A primeira noite terminou com o "Desfado" e com uns numerosos "Ah fadista" do público Nortenho.

O segundo e último dia do Festival trouxe mais fado à cidade do Porto e antes de se ouvirem os primeiros acordes da noite, já se sentia a saudade do fado pelas ruas da Ribeira.

Hélder Moutinho foi o último a ocupar uma das salas mais bonitas do Palácio da Bolsa. O salão Árabe recebeu o fadista que fez o público levantar-se várias vezes para o aplaudir. "O rapaz da camisola verde" e outros temas do novo álbum Manual do Coração foram os escolhidos para combinar a beleza e magia deste salão.

Hélder Moutinho

E se Jorge Fernando estava no Palco Caixa com momentos musicais de violino, baixo, flauta, guitarra portuguesa e bateria fazendo arranjos de músicas bem conhecidas do público como é o caso de "Chuva" que associamos a Mariza, no Mercado Ferreira Borges atuava um dos maiores nomes do nosso país. Simone de Oliveira entrou em palco e com um simples "vamos lá ver se conhecem esta" cantou o "Porto Sentido" de Rui Veloso com todos os que lá estavam para a ver e ouvir.

Jorge Fernando

Durante mais de meia hora de concerto, Simone mostrou que os quase 60 anos de carreira que carrega consigo não lhe tiraram brilho nem encanto. Divertida, partilhou com a plateia inúmeras histórias da sua vida e teceu inúmeros elogios à cidade do porto "Uma terra linda, uma terra amada". Acompanhada por uma guitarra, um saxofone, um acordeão e um piano tocado pelo seu amigo Nuno Feist, Simone interpretou as bem conhecidas "Sol de Inverno", "Tango Ribeirinho" e "O Teu poema" e não escondeu a sua emoção ao cantar "Foi assim", momentos depois de lembrar Nicolau Breyner.

Simone de Oliveira

Simone mostrou-se muito agradecida pela receção que teve e sempre tem na cidade do Porto e antes de se despedir com a bem familiar "Desfolhada" referiu que o "O Porto tem a alma que infelizmente Lisboa perdeu". A cantora foi muito aplaudida e só não recebeu ovações em pé porque a sala não tinha cadeiras.

O concerto surpresa tomou lugar na Praça da Ribeira e ficou à responsabilidade de Gisela João que se mostrou divertida e alegre durante toda a sua atuação. Entre temas como "Naufrágio" e "Vieste do Fim do Mundo" houve tempo para dançar o "Vira", o "Malhão" e cantar a "Casa da Mariquinhas" numa nova versão com letra da Capicua. Um concerto que teve o tradicional em conta mas mostrou que o bom fado pode ser mais leve. Princípio seguido também pela última fadista a pisar o palco desta edição da Caixa Ribeira.

Gisela João

À hora que devia estar a despedir-se, Raquel Tavares começou o último concerto da noite com a "Fama de Alfama" apenas ao som da sua guitarra portuguesa. "Vocês são um povo muito fadista" – A fadista mostrou-se muito ligada ao Porto pelo seu novo álbum e confessou que é muito especial estar a cantar aqui no Norte.

Raquel Tavares

Interpretou "Tradição", "Gostar de Quem Gosta de Nós" escrito por Tiago Bettencourt e dedicou o "Meu Corpo" àquela que foi para si a maior referência no fado. A fadista cantou em memória de Beatriz da Conceição com o xaile dela aos ombros, um momento muito aplaudido.

A noite foi também de "Regras da Sensatez" escrita por Rui Veloso, "Senhora do Livramento" e "Florência" na qual a cantora deixou escapar um "Ah Fadistas!". Antes de terminar o concerto com a alegre "Meu Amor de Longe", a fadista emocionou o público com o "Fado Cravo".

"Eu sabia que ia ser uma noite bonita" – Raquel Tavares despediu-se da invicta na promessa de voltar para o ano.

O Porto foi mais uma vez palco para o Caixa Ribeira, um festival que voltou a levar o fado a todos os que o querem ouvir, sentir e chorar. Porque feitas as contas: Tudo isto é nosso.

Equipa Noite e Música Magazine no Caixa Ribeira
Fotos: António Teixeira
Textos: Daniela Fonseca


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