Cuca Roseta em entrevista: "É preciso ser-se apaixonado pelo fado"


Cuca Roseta em entrevista: "É preciso ser-se apaixonado pelo fado"

Poucos dias depois de ter lançado o seu 4º álbum, Cuca Roseta falou-nos da sua relação com o fado e das suas convicções. A artista apresentou-nos o seu último projeto Luz e revelou as maiores diferenças que sente desde o seu primeiro trabalho no fado até ao presente.

Antes de falarmos sobre o teu novo álbum que estreou dia 10 de novembro, explica-nos como começou a tua relação com o fado.

A minha relação com o fado começou de uma forma muito interessante. Eu descobri o fado, o fado não fazia parte da minha vida. Normalmente estamos habituado a ver aquelas fadistas que crescem nas casas de fado porque os pais cantam ou porque tocam guitarra. É bastante comum vermos essas ligações e comigo não aconteceu isso, os meus pais sempre preferiram ouvir música clássica. Eu tive uma paixão pelo fado quando fui ouvir ao vivo e depois nunca mais consegui largar porque era uma música com a qual eu me identificava imenso. Foi assim uma paixão à primeira vista! É muito curioso, e, hoje em dia, eu já não me consigo imaginar sem ser fadista. Eu acho que, na vida, nós realmente nascemos para uma coisa. Eu não nasci no meio do fado mas fui lá parar, é porque tinha que ser!

Existe a alma de fadista?

Há um poema no fado que diz "Não é fadista quem quer, mas sim quem nasceu fadista". Eu acredito neste verso porque nem toda a gente consegue cantar o fado, nem todos os bons cantores conseguem cantá-lo. O fado tem uma maneira de se cantar diferente, usa muitas voltas, e, às vezes, nem um grande cantor consegue fazê-lo. Já aconteceu eu cantar com grandes cantores, principalmente de ópera, e ele dizerem-me que o fado era dos géneros mais difíceis do mundo. Depois, acho que também é preciso que quem o cante tenha algumas características, como o romantismo, a nostalgia, a melancolia, o sentimento, a emoção. É preciso gostar de se dedicar e dar tempo a si próprio e aos sentimentos. É preciso ser-se apaixonado pelo fado.

Tu fazes parte de uma geração de fadistas que tem mostrado que o fado é igualmente válido quando rompe com a tradição. Em algum momento sentiste que as pessoas te achavam menos fadista?

O meu público, não. Eu acho que fui conquistando o meu público e tenho tido sorte de ter sempre os meus concertos cheios. Agora, os chamados "puristas do fado tradicional" acho que nunca me consideram mesmo fadista. Dizem que eu e os fadistas da nova geração já não cantamos fado, que isto não é fado. É engraçado porque sempre fui ouvindo isso, e, já desde a altura da Amália, alguns desses "puristas" diziam que ela não cantava fado. A Amália diz que só cantou com 60 anos em Portugal porque ela cantava no mundo inteiro e era muito respeitada mas no próprio país ninguém a chamava para cantar. Diziam que ela também já não cantava o fado porque já era um fado-canção. Ela rompia completamente com aquilo que era tradicional e eu acho que nós, no fundo, fazemos exatamente o mesmo mas numa época diferente. Ela acrescentou o baixo ao fado, que não havia na altura, nós acrescentamos a percussão e fomos procurando o nosso género. Eu acho isto espetacular porque temos uma geração muito rica, somos muitos e muito diferentes. Isto acaba até por chamar mais pessoas para o fado porque umas identificam-se mais com um estilo, e outras com um género diferente. O que interessa é que mantemos o fado vivo e o levamo-lo para o mundo. Somos embaixadores de Portugal no mundo.

Este é o teu 4º álbum. Quais são as maiores diferenças da Cuca Roseta que nos apresenta este Luz e a Cuca do primeiro disco?

Bem, as diferenças são imensas! (risos). Acho que se evolui imenso! Às vezes as pessoas acham que cantar não tem nada para aprender, e não é bem assim! Primeiro de tudo, a voz é um músculo que tem que ser exercitar e depois existe muita aprendizagem a nível de autocontrolo, como o controlo das nossa emoções e a forma de como nos expomos. Mas mais do que isso, o gosto daquilo que nós escolhemos dizer e como o dizemos. Estas características podem parecer simples mas são uma ciência para quem canta. E depois há a questão do som! Existem milhares de microfones no mundo e cada artista acaba por encontrar aquele que é mais adequado para a sua voz. Eu acho que do primeiro disco para o último eu consegui encontrar um som que é muito real e muito parecido com a minha voz ao vivo. Foi uma evolução natural porque há um caminho a percorrer e esse caminho tem a sua beleza.

Como é que nos apresentarias este novo álbum? O que é que ele significa?

Este álbum chama-se Luz e esta luz é uma luz interior. Uma luz que se encontra no fado e que eu procuro dar prioridade. É uma luz interior que me guia, me mantém tranquila, em paz e me mantém equilibrada. Eu sou uma pessoa muito espiritual desde pequena e preciso de dedicar tempo a essa espiritualidade para poder viver bem. O fado é uma das coisas que me mantém equilibrada, esta luz que se encontra quando se canta fado. Este disco é ainda mais especial porque decidi que só iria deixar sair músicas com as quais me apaixonasse completamente. Acho que é um disco completamente "Cuca" mesmo não sendo totalmente de fado. Há alguns temas em que toca o Brasil, a África e outros sons. Sou muito "eu" neste disco e um fadista quando consegue encontrar a sua verdade, consegue realmente transmitir sentimento.

O tema "Balelas" foi escolhido para ser o primeiro single deste álbum. O "Balelas", de certa maneira, espelha o disco?

Eu acho que não espelha o disco porque o disco é muito diverso. Acho até que o "Balelas" é o mais diferente de todas a canções! É um tema completamente diferente e foi por isso que, eu e as pessoas que me ajudam na escolha do primeiro single, escolhemos este tema.

Para terminar, imaginavas que, neste momento da tua vida, a nível profissional, terias conquistado o que já conquistaste?

Não, eu não imaginava! Mas também é porque eu nunca faço muitos planos para a frente. Não crio muitas expetativas e sou uma pessoa muito ligada ao presente. Eu sou muito sonhadora na parte do amor e dos sentimentos, agora na parte da ambição, eu sempre fui uma pessoa que vive dia a dia. Eu digo muitas vezes ao meu manager para não me dizer os concertos que vou fazer daqui a um mês mas sim os que vou fazer nos próximos dias! (risos) É uma forma de me concentrar e de estar por inteiro nos momentos! Nunca na minha vida sonhei ou imaginei viver tantas coisas tão espetaculares como tenho vivido. As viagens que já fiz, os sítios onde cantei, as pessoas que conheci, foi tudo muito além do que eu poderia pensar. É fantástico eu ver este meu caminho e tive muita sorte porque desde que comecei nunca parei de ter cada vez mais concertos! Tenho tido mesmo muita sorte e agradeço muito por isso.

Recorda abaixo o concerto da fadista no Coliseu do Porto, em novembro do ano passado.

Entrevista: Daniela Fonseca