Balla em entrevista: "Foi o que eu escolhi para envelhecer"


No dia em que o projeto Balla apresentou o seu quinto trabalho "Canções", no Musicbox, o Noite e Música esteve à conversa com Armando Teixeira.

Noite e Música: Ao longo do seu percurso musical já pertenceu a diversas bandas dentro de vários panoramas musicais tais como os Boris Ex-Machina, Ik Mux, Bizarra Locomotiva e Da Weasel… Qual delas é que o mais marcou?
Armando Teixeira: Eu acho que a que mais me marcou foram os Balla. É o que me marca e que me dá vontade de continuar. Todas as outras coisas que eu fiz tiveram a sua época, uma função e uma razão de ser na altura. Foram coisas que passaram.

NM: Trabalhou como produtor para várias bandas. Destaca algum destes trabalhos? Por que motivo?
AT: Eu destaco dois desses trabalhos que fiz como produtor. Destaco o álbum a solo que fiz com o Rui Reininho, o único até agora, espero que faça mais e destaco também o primeiro álbum dos Loto, "The Club". Tanto num como no outro entreguei-me bastante como produtor. No caso do Reininho até compus algumas músicas. No dos Loto foi um trabalho de produção como eu acho que já não era capaz de voltar a fazer.

NM: Existe algum artista nacional com quem gostaria de trabalhar mas ainda não teve oportunidade?
AT: Não, acho que já o fiz. Há uns dois ou três nomes que eu admiro, pessoas com quem eu gostava de um dia vir a trabalhar mas sei que isso vai acontecer. Gostava de trabalhar com o João Peste e com o B Fachada mas é uma coisa que só o tempo o dirá.

NM: Prefere produzir ou estar em cima de um palco?
AT: Há tempo para tudo. Gosto bastante de fazer tanto uma coisa como outra. Estar em cima do palco é sempre mais especial do que produzir.

NM: Balla é o seu alter-ego?
AT: Sim, foi o que eu escolhi para envelhecer. Com os Bizarra ou com os Da Weasel não me fazia sentido aos quarenta anos estar a tocar esse tipo de música. Os Balla foi aquela banda que eu escolhi para poder envelhecer com ela. Poder mudar também, poder evoluir os Balla têm espaço para a evolução e para a mudança.

NM: O que o relaciona ao pintor (Giacomo Balla)?
AT: Tem a haver um pouco com o futurismo. O futurismo é uma corrente literária e artística na qual eu me revejo. Mas não tem a haver só com o pintor em si, tem também a ver com a sonorosidade.

NM: Em 2010 lançou o álbum "Equilíbrio", o quarto de originais, com uma roupagem bastante diferente dos anteriores e que se manteve no novo trabalho "Canções". Qual o motivo?
AT: Tem a haver um pouco com o que eu oiço e com o que eu quero fazer. Não é uma coisa planeada. Eu acho que todos os álbuns são bastante eletrónicos embora o que eu procurei fazer com os três primeiros foi esconder essa eletrónica. Existia mas era mais baseada nos samplers e o "Equilíbrio" passou a ter uma linguagem mais eletrónica. Tem a haver um pouco com a saturação, do facto de já o ter feito e apeteceu-me fazer coisas novas.

NM: O "Canções" foi um álbum pensado para tocar ao vivo?
AT: Não foi pensado para tocar ao vivo mas acontece que é um álbum que resulta bem tocado ao vivo e pela primeira vez nestes concertos de apresentação vou tocá-lo na íntegra. Mesmo quando só tínhamos o primeiro álbum não tocámos todas as canções ao vivo.NM: Fale-nos dos convidados que gravaram consigo o "Canções".
AT: Os convidados são normalmente acasos, são coisas que acontecem… A Inês Gonçalves que canta em dois temas é uma pessoa que já tinha cantado um tema dos Balla anteriormente, é uma escolha natural, uma excelente voz e eu sabia o que poderia esperar da Inês. Quanto ao Gomo e à Rita Reis, eles estavam no meu estúdio e eu pedi-lhes para cantarem o refrão da "Construí Ruinas"; uma música que achei que ficaria bem com as vozes deles. No caso do Joaquim Albergaria estava a trabalhar com um tema do Samuel Úria; uma pessoa que eu também admiro bastante, e achei que ficaria bem o contraste da voz dele com a minha e foi natural.

NM: É o seu trabalho mais complexo?
AT: Não sei se será o mais complexo porque é um trabalho que flui de maneira natural. Mas é um trabalho ponderado, pensado e é bastante trabalho como todos os outros.

NM: Foi composto, gravado e escrito quase a cem por cento por si. Porquê?
AT: Porque é natural ser assim. No disco anterior tive a sorte de ter o Pedro Mexia, o Miguel Esteves Cardoso e o José Luís Peixoto a escreverem para mim, a escreverem e a preocuparem-se com as canções que eu fiz, a escreverem para a minha métrica e eu sentia e sinto essas letras quando as canto como se fossem minhas e isso são momentos que não se repetem.

NM: Prefere atuar em Portugal ou no estrangeiro?
AT: Só atuamos no estrangeiro uma vez; na Venezuela. Mas fomos muito bem recebidos e correu tão bem que me apetecia repetir, mas acho que não tenho essa ambição de internacionalização. Com os Balla eu sinto que não quero mudar o que são para conseguir alguma internacionalização, é uma coisa que quero manter assim.

NM: Sente reconhecimento pelo seu trabalho no nosso país?
AT: Sinto e acho que pelo facto de conseguir editar cinco álbuns de originais e de conseguir mante-los e fazer canções ao fim destes anos todos é uma prova de que sou apoiado.

NM: No seu segundo trabalho discográfico possui algumas letras em francês. Por algum motivo especial?
AT: Nessa altura andava bastante obcecado com a música francesa. É uma coisa que eu gosto bastante e andava muito à procura de discos e o aquilo que mais me inspirava eram de facto as músicas francesas. Por acaso nessa altura conhecia uma rapariga que cantava em francês, a Sylvie C que participou nesse disco e então tudo se aproximou para isso.

NM: O Pop em Portugal está morto?
AT: Claro que não. Mas de qualquer maneira eu espalho que faço pop mas acho que é um pop alternativo, não é aquilo a que as pessoas estão acostumadas a chamar pop. O pop em Portugal não é aquilo que eu imaginava na minha juventude, aquilo que eu imaginava é o que hoje em dia é tido como o mais alternativo, são as canções, são as palavras, a maneira de fazer as canções e isso é uma coisa que já não existe. A pop não é o que eu imaginava como sendo pop, a pop é uma coisa muito mais fora do universo que eu pratico. Não me imagino a gostar de pop como o pop que existe atualmente como sendo pop.

NM: O que podemos esperar dos Balla no próximo ano?
AT: No próximo ano esperamos tocar muito. Acho que as bandas têm duas fases; é a fase em que estão a criar e a compor músicas para fazer um disco e quando o acabam querem partilhá-lo e é isso que eu quero fazer neste próximo ano.

Fotos: João Paulo Wadhoomall
Entrevista: Bruno Silva


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