Yo La Tengo @ Aula Magna


Foi uma noite estranha, a que se viveu ontem na Aula Magna. Parecia que ia chover, não choveu! Estava desolador o ambiente à abertura de portas, mas a casa ficou muito bem composta! Assistimos a dois concertos completamente distintos e, quem sabia ao que ia terá ficado satisfeito mas os que iam à descoberta, nem tanto!

Já não era o primeiro concerto do grupo de Hoboken, New Jersey em Portugal. Como fizeram questão de frisar, já há mais de 20 anos que passam pelo nosso país e têm uma base de fãs bem consistente dentro do público dos 30 anos para cima (ou não tivessem formado a banda num já longínquo 1984). De lá para cá, quase 20 álbuns editado e várias passagens por Portugal em festivais ou em concertos de nome próprio.

Nesta primeira data da tour europeia, trouxeram "Fade", lançado já este ano pela Matador Records. Mas este concerto não serviu apenas para promover o último álbum pois teve covers (demasiadas para uma banda com tanta discografia?), recordações do passado e uma divisão clara entre primeira e segunda parte do concerto.

Apenas 10 minutos após a hora marcada no bilhete, Ira Kaplan, James MacNew e Georgia Hubley saíram por detrás das árvores colocadas a meio do palco para, quase sem se dar por eles, cantar a 3 vozes o "hino" indie que é "Ohm" (canção de abertura de "Fade"). Continuando a apresentar o último lançamento, seguem com o loop de "Two Trains" em modo quase-instrumental.

Depois ouvimos Georgia cantar "Demons" da banda-sonora do filme "I Shot Andy Warhol", numa recuperação da setlist do primeiro concerto em Portugal, há vinte anos atrás. E como também James merece cantar (apesar do esquecimento na altura da escolha da setlist), temos direito à primeira versão: "Gentle Hour" dos Snapper, com um piano a fazer lembrar a música-tema de um "Baywatch" imaginário (em versão alternativa realizada por Wes Anderson).

Antes do intervalo tivemos ainda o regresso a "Fade" com "The Point of It" e "I’ll Be Around", seguidas da aguardada "Tom Courtenay", com direito a palmas nos primeiros acordes.

E chegou então o intervalo: trinta minutos de música brasileira nas colunas, recolocação das árvores do cenário, mudança de instrumentos acústicos para elétricos (e Georgia na bateria) e a demonstração de que a frase de Ira, na primeira parte, talvez não fosse totalmente verdade ("Não somos uma banda de tirar a camisa e saltar para a plateia…"). Os primeiros acordes foram logo distorções saídas da guitarra do frontman a indiciar que as baladas de outono, curtas e sem refrão da primeira parte tinham ficado para trás. Com o grito "Estou com uma t-shirt vermelha, não somos uma banda gótica! Por favor, deixem as luzes ligadas!" deixou bem claro ao que vinham nesta segunda parte.

"Nothing to Hide" abriu as hostilidades para uma sequência de raiva e experimentalismo constante, constituída ainda por "Before We Run", "Sudden Organ", "Is That Enough" e a terminar com "Little Honda" (cover dos Beach Boys).
Alternando entre a guitarra e o órgão, Ira Kaplan foi deixando para segundo plano os outros músicos em palco. James McNew transformou-se num bobblehead gigante, com o seu abanar de cabeça como único movimento corporal (secundado por muitos espetadores) e Georgia começou a parecer apenas uma caixa de ritmo em loop constante, ao serviço do seu líder. Fomos embalados, por estes Sonic Youth meio murchos, de repetição em repetição sónica até final do concerto com a longuíssima (mais de 15 mins) "Pass the Hatchet, I Think I’m Godkind".

Nos dois encores tivemos mais covers, "Can’t Seem to Make Yo Mine" dos The Seeds (com homenagem a Sky "Sunlight" Saxton), "Frenzy" dos The Fugs e "Message to Preety" dos Love (a pedido da primeira fila). Todas confirmaram a fraca voz de Ira, fazendo-nos sentir pena de não ouvir Georgia cantar mais vezes (confirmado pela belíssima música final: "Griselda").

Quase três horas depois terminou este concerto bem diferente do habitual, onde até os que saíram agradados não o demonstraram com grande euforia. Fomos todos, público e banda, meio murchos, talvez sinal do frio invernal…

Fotos: Vic Schwantz
Texto: Miguel Lopes


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