Warpaint na Aula Magna: a faceta sedutora do rock de Los Angeles


Warpaint na Aula Magna: a faceta sedutora do rock de Los Angeles

Noite de sábado e a Aula Magna oferecia o programa perfeito para combater o frio de Inverno. Do sol da Califórnia veio o quarteto que não responde a etiquetas musicais.

Emily Kokal, Theresa Wayman, Jenny Lee Lindberg e Stella Mozgawa são praticantes de diversas modalidades: dream pop, indie rock, punk depois do punk, com influências electrónicas e uma absoluta dedicação à sensualidade audível e visível.

Pré apresentação das senhoras da noite, Sequin deu espetáculo, tirando trunfos da manga e samples da bagagem. Não faltou "Beijing", o primeiro single da portuguesa Ana Miró, para iniciar a noite em tons naive, calorosos, vindos da sombra e do nevoeiro. Uma voz doce sobre ritmos certeiros, apresentada a Lisboa na última edição  do Mexefest, faz de Sequin uma das artistas a ter debaixo de olho. Bailarina por detrás do teclado, terá álbum editado no próximo abril.

"Intro" em loop, dá-nos as boas vindas e aumenta a ansiedade, o bater do coração, a vontade de dançar. Em aquecimento para um concerto que se adivinhava com o tempo certo para ficar a desejar por mais, sem desilusão.

O sucessor de The Fool, homónimo lançado no inicio de 2014, apresentou-se com o embalo rítmico de "Keep It Healthy". Artesãs de um álbum de texturas deliciosas, convidam Lisboa a dançar ao som de um disco bem mais temático do que o aclamado álbum de estreia.

"Hi" é uma história cantada por Theresa, inspirada num episódio emocional do passado, que viaja por ambientes extravagantes e sintetizadores personalizados pelas guitarristas da banda. Para confortar o ouvido dos entusiastas dos primórdios Warpaint, "Composure" mostrou todo o seu encanto groove, com o poder de Jenny Lee no baixo, incansável no dedilhar, no sorriso, na cumplicidade.

Corpos dançantes e os restantes ainda estáticos na cadeira que ocupavam, receberam "Feeling Alright" com a felicidade em modo dormente. "Love Is To Die" mudou o panorama três minutos, com todo o seu majestoso poder de single, simples mas viciante. Guitarras entrelaçadas em acordes distorcidos, o baixo sedutor , hipnótico e uma bateria incansável cativam a plateia sem esforço.

"Biggy"…é perfeita. Uma música que cresce na voz de Kokal, numa mecânica de trip-hop cíclico, robótico, para ouvir de olhos fechados. O momento alto da noite veio sobre os primeiros acordes da mustang cor de cereja de Wayman em "Undertow", o clássico de uma carreira que começou há 10 anos atrás. Uma versão que se alarga na duração e na velocidade surreal de uma breve jam session.

Segue-se a demonstração de "No Way Out", numa dose de funk extra, de contratempos e regras quebradas. A doce, apaixonada e silenciosamente gritante "Billie Holiday", de Exquisite Corpse (2009) deixou a Aula Magna em suspenso, numa sintonia melódica sem fim.

Drive, viveu na era pop dos anos 90, tão saudosista como tântrico, de um disco onde todas as canções terminam na mesma meta, atingida por caminhos dispares. Com a magnética e assustadora "Disco//Very", Warpaint despedem-se de uma sala em ovação.

O encore, ou máquina do tempo, transportou-nos para um universo onde só Emily Kokal existe. Intimista e trovadora, "Baby" casou-se com "Because The Night" de Patti Smith, numa surpreendente simbiose, aplaudida a dois tempos. Com o ensemble completo em palco, Miss Lindberg ativa o modo animalesco e paranormal na introdução de "Bees". E lá vem Theresa Wayman, com o seu demarcado riff de guitarra em "Elephants". Uma música de longa duração em estúdio, ganha outra escala com um quarto de hora no palco, na jam final, epítome da alma Warpaint.

A última noite de tour neste lado do Atlântico, matou saudades e promete repetir-se com todo o seu ondular harmónico no Primavera Sound lá mais a norte.

Fotos: Marta Ribeiro
Texto: Sara Fidalgo


,