Vodafone Paredes de Coura: dia 4 (23/08), com Beirut e James Blake


Vodafone Paredes de Coura: dia 4 (23/08), com Beirut e James Blake

Mais uma edição do Festival Vodafone Paredes de Coura que findou. Levamos na bagagem bandas que se tornaram indispensáveis para o panorama musical dos descobrimentos e que destas conquistas juntamente com o fantástico ambiente característico deste festival, fazem com que as promessas do público sejam a de regressar.

SEQUIN

Eram 18h e a plateia a meio gás que permanecia no palco Vodafone FM esperava pontualmente a entrada de Ana Miró – Sequin. Acompanhada por um teclista e um baixista, Sequin apoiava-se nos sintetizadores e ia traçando os temas do seu álbum Penelope em conformidade com o público entusiasta que se envolvia no seu pop-electro misturado com fragmentos de sensualismo que faziam recordar Ladytron ou The Knife. De uma simpatia natural, Ana ia esboçando sorrisos e olhares entre os músicos e a plateia, acabando por verbalizar “Agradeço por terem trocado os banhos no rio e por me virem ver a esta hora.”

SENSIBLE SOCCERS

Passado meia hora, entram no palco principal os Sensible Soccers um quarteto do panorama musical português composto por Hugo Alfredo Gomes, Filipe Azevedo, Manuel Justo e Emanuel Botelho.
Numa sonoridade difícil de definir, onde o rock psicadélico se funde com um delicado pop, proporcionando uma estética própria que deixa alguns admiradores em puro transe junto das grades de separação entre o fosso e o palco.

THE DODOS

Numa composição experimental e inesperada onde o cruzamento de estilos permanece a favor dos californianos The Dodos entre o folk e o psicadelismo propositado misturado com pitadas de rock, o baterista – Logan Kroeber – profere "Este é o último concerto da nossa digressão europeia e não podíamos imaginar melhor forma de a terminar". O duo – Meric Long e Logan Kroeber – conquistavam a plateia com o seu álbum Carrier com melodias vibrantes, levando-os até o seu álbum editado em 2011 No Color numa nova versão do tema "Good".

KURT VILE AND THE VIOLATORS

Já com as últimas luzes do sol, o roqueiro americano Kurt Vile se apresentou às 19:40h para um público que ainda tomava timidamente o espaço do anfiteatro da Praia do Taboão.

Os festivaleiros, em grande parte sentados na relva, não se envolveram muito com o concerto, pareciam mais aproveitar o pôr do sol para relaxar que para prestigiar o rock psicadélico de Vile e sua banda, The Violators. A apresentação, que começou calma, evoluindo pelo meio, mais elétrica e pesada, e desacelerando no final, quando boa parte dos festivaleiros já começava a abandonar o recinto em direção ao palco secundário.

HAMILTON LEITHAUSER

Às 20:30 foi a vez do nova-iorquino Hamilton Leithauser apresentar-se no palco Vodafone FM. Com o recinto a ameaçar encher e a receção afetuosa dos festivaleiros mais próximos, o músico, que foi vocalista do "The Walkment" por mais de uma década deu ao público uma mistura de rock, pop e blues num concerto que parecia pedir um local mais intimista.

Com músicas como "Alexandra", "I Retired" e "I'll Never Love Again", Leithauser foi uma boa companhia dos festivaleiros e a certa altura chegou a dizer "Adoro tocar cá, até dei o nome de um disco à cidade de Lisboa". A simplicidade e os arranjos bem trabalhados agradaram o público em clima de despedida de mais uma edição do Vodafone Paredes de Coura.

THE GROWLERS

Os norte-americanos se apresentaram às 21:20h no palco principal do festival de Paredes de Coura trazendo um rock psicadélico um tanto parado, deixando o público disperso, exceto os sempre bem-dispostos festivaleiros próximos ao palco.

A banda formada em 2006 chegou a conseguir arrancar alguns aplausos da plateia e em certo momento contou com a participação inusitada de alguns festivaleiros vestidos de animais, dentre estes estavam dois crocodilos. Uma boa apresentação, porém deixando um pouco a desejar neste último dia de festival no Minho.

GOAT

Máscaras, roupas coloridas com estampagens tribais, penachos nas cabeças e uma atmosfera quase ritualística, poderiam ser xamãs – ou aliens –, mas eram os Goat. Os suecos subiram ao palco Vodafone FM às 22:30h e foram bem recebidos pelo público que encheu por completo o local, em grande maioria sem saber bem o que esperar de criaturas tão estranhas. O que receberam? Uma apresentação quase hipnótica, repleta de dança, rock psicadélico, um quê de xamanismo, ritmos tribais vocais que parecem vir de uma tribo inteira.

Tendo seu primeiro álbum, o World Music, lançado em 2012, os Goat fazem questão de manter um certo mistério sobre a identidade dos componentes, optando pelas fantasias chamativas em todas as apresentações. A mistura um tanto bizarra de elementos parece ter conquistado os festivaleiros, que aplaudiam e gritavam a cada canção, certamente o objetivo de causar um forte impacto visual e envolver o público até quase estado de transe foi alcançado com êxito pelo grupo.

Os suecos mostraram que conseguem levar a plateia da euforia de um concerto de rock ao clima místico de um ritual de tribos antigas sem esforço e fazer esta improvável mescla se tornar uma experiência fantástica.

BEIRUT

Às 23h15 já se ouvia o rufar no solo do pisar do Elephant entre a plateia imensa que lotava o anfiteatro natural do Taboão à espera que Zach Condon e a restante banda entrassem em palco. Amantes do público português e vice-versa, os Beirut iam aquecendo com os temas "Postcards From Italy" e "East Harlem". A banda composta por seis músicos, entre acordeão, bateria, teclado e os metais que davam um travo da música "mexicana", deliciando a plateia a cada gesto musical. As vozes da plateia aqueciam antes de Zach transportar o seu ukulele e iniciar os primeiros acordes de "Elephant Gun", fazendo posteriormente entoar um coro em "Santa Fé". A pedido de alguns cartazes que algumas admiradoras seguravam "Gosto muito de você leãozinho!", Zach esboçou um cheirinho da música "Leãozinho", invocando Caetano Veloso. "Estivemos hoje a nadar no rio, e a água é gelada. Este festival é fantástico, a melhor audiência de sempre." A última canção despoletou o vibrar luminoso de vários telemóveis e lanternas iluminando a imensa plateia que ia batendo palmas e deixando na memória dos festivaleiros, um dos grandes concertos da noite.

JAMES BLAKE

Se estavam à espera de um toque diferente deste talento da eletrónica introspetiva, eis que James Blake não saiu da sua zona de conforto, levando muitos dos festivaleiros que ainda pairavam por ali após Beirut abandonarem o recinto. Blake ia tecendo alguns elogios devido ao local espantoso que se inseria a sua performance e por ter a honra de o partilhar com os demais. Perto das grades de separação iam-se ouvindo os gritos das admiradoras a cada compasso musical, enquanto à medida que se ia subindo pelo anfiteatro só se ouviam argumentos menos positivos e até um "Vai te embora!".

Num concerto que divagou entre os seus dois álbuns Overgrown e o seu homónimo de 2011, reinventando o dubstep e o R&B com uma injeção de samples que se cruzavam com os seus falsetes inabaláveis. Solta temas como “Limit To Your Love” – versão de Feist – e “I Never Learnt To Share” e numa onda mais intimista, iluminado por dois focos e fazendo-se acompanhar pelos teclados, Blake vai prosseguindo a tentativa de aquecer a plateia que ainda se aguentava de pé.

Se a escolha para fechar o cartaz do palco principal foi a mais acertada, fica a dúvida e o desagrado por parte dos festivaleiros que se iam queixando ao longo do decorrer do concerto de James Blake.

Após uma sessão lotada trazida pelos Beirut, fica a promessa por parte da organização que o festival volta a acampar no mesmo recinto em 2015, entre os dia 19 e 22 de agosto.

Fotos: Diogo Baptista/Oporto Agency
Texto: Camila Câmara c/ Oporto Agency


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