Vodafone Mexefest: reportagem do 1º dia, com Woodkid e Savages


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Woodkid deu o concerto da noite, Savages e John Grant muito aplaudidos pelo público, Wavves não conseguiram criar empatia.

O primeiro dia de Mexefest levou grandes nomes da cena musical atual a salas de espetáculo no centro de Lisboa. O Cinema São Jorge foi a casa para performances de artistas portugueses e, em toda a extensão da Avenida da Liberdade, ouviam-se propostas irrecusáveis no palco mais próximo.

A pé, de Vodafone Bus com concertos no interior ou atenciosas carrinhas, o transporte fez-se sem problemas. Nas ruas viam-se os resistentes à crise económica e os que pediram a prenda de Natal antecipada.

A noite começa com Juba no São Jorge, na sala Montepio, acolhedora e calorosa para quem tinha estado na fila ao frio. Intros longos em cada tema, numa espécie de resumo do turbilhão sonoro que se segue. Um par de guitarras imaculadas e uma bateria quase locomotiva, ritmada e robusta, conduziram quem ia espreitar o concerto, por caminhos com um arzinho de punk. E quem lá esteve sabe: estes jovens rapazes são a próxima grande cena!

Na sala ao lado, a principal, Márcia entra calma à guitarra, acolhida pela audiência orgulhosa e rendida a todos os seus encantos artísticos. "Cabra-Cega", chega doce e dançante e fez um super fã levantar-se da cadeira, a dançar e a incentivar o público da sala inteira a acompanhar a batida. No fim, Márcia garantiu "Eu não lhe paguei". A cantora dedicou "Delicado" a um casal que festejava o primeiro aniversário de namoro. Há qualquer coisa de surf pop misturado com guitarras à Dead Combo, que fazem dão toda a personalidade de um registo intimista. Márcia joga com estilos e casa géneros de um minuto para o outro, com uma mestria que aquece o coração.

Para "Menina", entrou Samuel Úria em cena e numa de Elvis charmoso deu um pézinho de dança. Antes de "Eu Seguro", sai um "És lindo!" da plateia feminina ao qual o cantautor responde "Obrigado gentil cavalheiro". António Zambujo fez companhia na segunda rodada de duetos, com "Vem" e "A Pele Que Há Em Mim". Simpatia, instrumentais complexos e artesanais, fizeram do espetáculo de Márcia e companhia, um dos momentos a recordar do primeiro dia de festival.

Bombay Show Pig tocaram num pavilhão de basquetebol, agora equipado para música da pesada. "Look at me trying to build up a wall, I won't stop til it's twenty feet tall." é o mote da banda e a filosofia que se tentou espalhar pela mente de quem estava a assistir. Uma química espiritual em palco, entre Mathias Janmaat e Linda van Leeuwen, compensou pela acústica não apropriada ao concerto da dupla alemã. Rock de garagem tocado num complexo desportivo, fez com que o som dispersa-se até fazer a roupa tremer.

Sem querer fazer comparações mas sem conseguir fugir delas, as Savages são uma espécie de Joy Division no feminino, numa fusão onde se ouvem lembranças da voz de Siouxsi Sioux. Lá mais para o inicio do ano, a banda londrina esteve no Primavera Sound do Porto mas pela primeira vez em Lisboa, nada adivinhava uma surpresa  tão majestosa.

Pela pontualidade britânica, Jehnny Beth, Gemma Thompson, Ayse Hassan e Fay Milton entraram em palco todas de preto, prontas para fazer o melhor rock do espetro musical: rock de salto alto. Do breve EP ao álbum de estreia, Silence Yourself, pouco tempo ouve para recuperar o folgo que Jehnny Beth roubava ao público.

"Shut Up", o segundo tema do alinhamento, entra a matar enquanto a vocalista faz as delicias dos fotógrafos, desafiante e teatral, debruçada sobre as câmaras, debaixo de focos brancos. O carisma e a força da comandante das tropas de batom e guitarra, resultou em explosões de aplausos sempre que as luzes se dissipavam. "She Will" faz sobressair a bateria, com um poder rítmico complementado pelo baixo, por vezes tímido, por vezes dono de si mesmo.

Há dor e entusiasmo na mesma voz, madura e sedutora, há poses, drama e distorção selvagem. Há viagens até à plateia, para cantar em frente aos entusiastas lisboetas – ou os que o foram apenas por uma noite – com a letra na ponta na língua.

"Don’t let the fuckers get you down", barulhenta e de serviço público, pretendia ensinar, sem fazer favores a alguém. Os gestos hipnotizam quem conseguia sentir a música de olhos abertos.

As super mulheres deram uma tareia às ideias pré-concebidas. Em palco, não foi precisa pele à mostra, nem cores berrantes para chamar a atenção – fora uma deliciosa guitarra azul bebé. Certo e sabido, as Savages estão a outro nível.

Para os caminhantes que se dirigiram até à sala esgotada do Cinema São Jorge, havia um concerto de John Grant para disfrutar. Com Pale Green Ghosts, o segundo disco na bagagem, o norte americano mostrou toda a sua honestidade em composições sobre o passado e novos temas de cariz eletrónico. "You don’t have to" agarrou o público pelo coração, encheu-o de beijos, hipnotizou-o e falou-lhe ao ouvido. A banda ajudou nos momentos de turbulência, emocionais, aos quais o público de rendeu, apaixonado.

Próximo passo: dar corda aos sapatos, de cachecol bem apertado, em direção ao Ateneu Comercial de Lisboa para o grunge ácido e estridente de Wavves. Se Kurt Cobain fosse surfista, seria este o tipo de música que faria. Pela terceira vez em Portugal, o grupo de Nathan Williams debitou temas como "Demon To Lean On" e o imperativo "King of the Beach".  Mas os californianos não preencheram as altas expectativas que Lisboa guardava sobre si: uma (quase) palestra sobre cocaína comprada ali na esquina, garrafas de vinho para molhar os lábios e uma postura pouco descontraída fizeram desta a primeira desilusão de sexta-feira à noite. "Valha-nos Woodkid", comentava-se público fora.

Run Forest, Run era o estado de espírito para quem tentava sair da sala lotada de Wavves. No Coliseu, queria-se "Run Boy Run", do francês Yoann Lemoine. Também conhecido como Woodkid, o artista voltou recentemente ao seu primeiro amor – realizou o vídeo de 24 horas para "Happy" do hit maker Pharrell Williams – e veio mostrar do que é feito ao vivo. The Golden Age, o álbum de estreia, saiu este ano mas já soava familiar.

Majestosa e surreal, a voz de Woodkid é algo inexplicável. Vem do universo de filmes épicos e de bandas sonoras de que Hans Zimmer poderia ter feito a composição. As músicas, embaladas por sons orquestrados e coreografias de luzes incansáveis,  fizeram a grande celebração da noite.
Woodkid é um super-herói, com o poder de ter o Coliseu ao seu comando. "I Love You" foi cantada de uma ponta à outra pela cidade inteira, sentida, séria, sombria. Instrumentos de sopro, secção de metais e uma tela para imagens espetaculares, fizeram desta performance mais do que um concerto, uma experiência visual de força bruta. "Volcano", a novidade de carácter eletrónico, provocou batimentos taquicardíacos, como uma bomba musical que causa terramotos, numa Guerra dos Mundos futurista.

"Iron" serviu de despedida e no encore – uma surpresa para Woodkid e para quem anda nesta vida de festivais – "Run Boy Run" foi celebrada com um sem fim de sing along. Na estreia do artista em Portugal, ficou a confirmação: "You are the s***". E a promessa de uma visita, possivelmente, já para o ano que está a chegar.

Para os resistentes, havia RAC de volta ao Ateneu. O produtor português, que vive desde a adolescência nos Estados Unidos, trouxe remisturas de temas familiares na galáxia da música indie e originais do EP Don’t Talk To. Música com história, para dançar até deixar de sentir o corpo.

Fotos: Eduardo Alberto
Texto: Sara Fidalgo


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