Vodafone Mexefest Lisboa '12: 1º dia, 7 dezembro


Foi numa sexta-feira chuvosa que nos deslocámos à Avenida da Liberdade para presenciar, pela primeira vez, o festival que mexe com a cidade e põe as pessoas a mexer. Nascido há dois anos de um Super Bock em Stock já em crescimento, este festival ambicionava ainda mais com a aposta, cada vez mais crescente, da Vodafone na música: mais salas, mais bandas e mais uma cidade (o Porto). Este ano chegou a 15 salas (com as novidades Estação Vodafone FM – estação de comboios do Rossio, Ministerium Clube, Ateneu Comercial de Lisboa, o saudoso Ritz Clube e o Starbucks) e trouxe mais de 60 artistas.

Tentámos espreitar todas as salas e o máximo de concertos, no que é humanamente possível, para quem anda avenida acima e abaixo e almeja tomar atenção a, pelo menos, três a quatro canções em cada um. Começámos pela Casa do Alentejo (nota: a programação do festival começa com as salas do início da Avenida e vai subindo ao longo da noite – com segundas passagens por estas primeiras salas) e pelos também alentejanos Virgem Suta. A dupla que promove o seu novo álbum "Doce Lar" encontrou uma sala ainda a meio gás para revelar as novas canções de pop tradicional que já rodam nas rádios portuguesas (como "Maria Alice" e "Bárbara & Ken").

Depois de um rápido desce escadas, sobe escadas entrámos no segundo andar da Sociedade de Geografia de Lisboa para contemplar a mais bela sala do festival. A sua imponência contrasta com a intimidade que cria nos concertos que ali se realizam, bastando ter a luz ténue a acompanhar as vozes dos cantores que por ali passam. Respeitando a artista, fazemos como todos os que por ali vão passando e só entramos nos intervalos entre músicas e deparámo-nos com a, também bela, Elisa Rodrigues, a apresentar o seu primeiro trabalho "Heart Mouth Dialogues" um álbum de covers (ou arranjos como a cantora lhes chamou) em modo smooth jazz bem ao estilo de Melody Gardot ou Norah Jones. Acompanhada ao piano por Júlio Resende, com uma voz tecnicamente irrepreensível e cheia de alma a ecoar pela sala (quase sem amplificação) vemos a cantora terminar "Dá-me Lume" de Jorge Palma, passar por um jazzy "By Your Side" dos CocoRosie, levantar-se para um poderoso "Roxanne" dos Police, convidar Paulo Furtado (aka Legendary Tigerman) para "Femme Fatale" de Nico e terminar com o seu único original: um blues chamado "Run".

Ainda na mesma rua do Coliseu dos Recreios e depois de nos cruzarmos nas escadas com o vereador Sá Fernandes (com certeza a fiscalizar os níveis sonoros dos concertos do festival), entramos em mais um dos novos espaços do festival. O Ateneu Comercial de Lisboa é um aglomerado de salas e ginásios que há décadas serve os habitantes da capital e que, neste festival, viu transformado o seu pavilhão interior na sala Super Bock Super Rock para receber vários nomes conhecidos da electrónica em formato live act. A estreia pertenceu à D.I.S.C.O.T.E.X.A.S. Band, colectivo da editora nacional que junta, por exemplo, Xinobi ou Da Chick. Eram apenas alguns aficionados da electrónica os que acorreram tão cedo às batidas que ecoavam (exageradamente) por todo o pavilhão, acompanhadas pelos gritos de uma Da Chick "armada" em Peaches. Interessante o toque funk/disco das músicas, porém deslocado de uma verdadeira pista de dança.

Marcha atrás para conhecer a Estação Vodafone FM – Estação do Rossio e presenciar, mais uma vez, a festa dos Cais Sodré Funk Connection. Foi nas traseiras da estação e com a vista fantástica do Castelo de São Jorge por trás (era o palco com o melhor enquadramento do festival), que encontrámos muita gente a dançar ao som do funk, soul e groove do colectivo lisboeta. A voz de Silk (um clone de James Brown) convidava todos para a dança e a boa-onda com as canções de "You Are Somebody", acabadinho de chegar em outubro mas já bem conhecido das atuações nos últimos anos. Depois da última, "Soul Power", já tínhamos alento para subir meia avenida até às maiores salas do festival.

Pelo caminho tropeçámos nos Madrid (a dupla Adriano – ex-Cansei de Ser Sexy – e Marina "Bonde do Rolê" Gasolina) no "aberto por uma noite só" Cabaret Maxime. Era num ambiente desolador e quase solitário que a dupla tentava puxar por um pouco entusiasmante set de algo que andava entre um blues "mal-lavado" e um indie-rock ainda mal polido. A necessitar de nova audição, pois poderá ter sido uma má noite…

Depois de ver passar por nós a experiência alucinante que será o Vodafone Bus, com as Anarchicks e os Nice Weather for Ducks a não deixarem ninguém descansar sentado, mesmo em viagem, chegamos ao Cinema São Jorge. Na sala Manuel de Oliveira (a maior do cinema), Manuel Fúria e os seus Náufragos davam um dos que viria a ser dos melhores concertos do festival. Esta banda é claramente uma evolução dos Golpes, na sua aposta no rock (ou roque como lhe chamam) inspirado nas raízes, amores e desamores de aldeia e nos tempos áureos dos grupos dos anos 80. Com uma formação mais cheia, com os teclados de Silas Ferreira, violinos ou o ausente acordeão de Madalena Sassetti, a música também fica a ganhar conseguindo ir do tradicional ao pós-rock, chegando por momentos a fazer lembrar uns Arcade Fire. O concerto em que Manuel Fúria passou por alguns temas mais antigos (do seu primeiro álbum a solo "Homem-Arranha"), uma versão de "Sonhos de Menino" de Tony Carreira, e alguns (poucos) temas do novo disco "Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo" (como o single "Que Haja Festa Não Sei Onde"), merecia mais do que meia sala, pois a banda é uma das apostas seguras para 2013 e vai dar que falar.

Atravessamos a rua, encontramos o "patrão" Luiz Montez (a acompanhar o mais importante concerto da noite) e passamos à frente de uma fila gigantesca ("privilégios" da acreditação de imprensa) que aguardava, ingloriamente, ainda conseguir entrar para um esgotadíssimo Teatro Tivoli BBVA para ver os Alt-J (na foto). Os vencedores do Mercury Prize deste ano chamaram multidões para o seu concerto e não deixaram os créditos por mãos alheias. Os nativos de Leeds, praticamente desconhecidos há um ano (embora já com uma passagem em Portugal, no festival Milhões de Festa), foram recebidos em histeria por um público conquistado já antes do concerto começar. Apenas com um EP e o primeiro álbum "An Awesone Wave", granjearam elogios do público e critíca e confirmaram neste concerto tudo o que deles era dito. Com uma mistura de rock, psicadelismo, folk, trip-hop e salpicado com uma voz característica, os Alt-J conseguem criar algo diferente e agradar a vários públicos dentro da música alternativa. A dedicatória de "Matilda" atingiu, de certeza muitos corações, o hit "Flitzpleasure" levou a sala ao rubro e a final "You Can Dance To" acompanhada ao xilofone levou até que algumas fãs ficassem loucas, apesar de só terem conseguido entrar nesta última música. Foi o ponto alto desta noite de festival.

Voltamos a descer a avenida, passando pela mítica sala do Ritz Clube onde uma multidão suada, tinha fugido ao Tivoli para saltar ao ritmo do espanhol Bigott que com a sua jovem banda e o seu farfalhudo bigode deambulavam entre a folk e o rock musculado.

Chegámos de novo à Estação Vodafone FM para comprovarmos a ligação de Cody Chesnutt à música negra norte-americana e o porquê da sua colaboração com os super The Roots. Com o seu "casco" característico na cabeça, Cody animava uma plateia cheia com o seu soul e r&b carregado de bom astral e privilegiava o seu último álbum "Landing on a Hundred" em detrimento de músicas mais antigas. A comunicação com o público era constante, o que até levou a que o mesmo cantasse sozinho, apenas acompanhado de um piano muito jazz. A animação reinava.

No nosso vai e vem constante, encontramos público saído de um lotado concerto de António Zambujo no Coliseu, alguns cantares alentejanos, excursões de velhinhos saídos de "Amália" no Politeama, uma fila gigantesca para 2 Bears no Ateneu (abstivemo-nos de entrar) e a música de Joy Division a sair das colunas de um dos quiosques da Avenida. Detivemo-nos então no Cabaret Maxime para, um muito concorrido, concerto dos portugueses Gala Drop. São uma das bandas portuguesas com mais repercussão na cena alternativa internacional, nos últimos anos, reinventando o rock com cruzamentos com o afrobeat, psicadelismo ou electrónica. Com uma formação de excelentes músicos conseguiram conquistar muitos adeptos neste concerto em que apresentaram o seu último álbum "Broda". Podemos dizer que quase não conseguíamos sair da sala, tal era a confusão de pessoas a tentar entrar (muitos dos nossos colegas jornalistas tentavam, em vão, levantar a sua credencial na esperança de "saltar" por cima da multidão).

Numa das últimas incursões da noite, fomos "conhecer" Victoria Hesketh (ou melhor, Little Boots) a minúscula inglesa que granjeava de vários adeptos na sala principal do São Jorge. Com um electro-pop muitas vezes já algo fora do prazo, a animada cantora puxava por um público dançante e já fora das suas cadeiras. Chegámos perto do final e percebemos que a sua atuação foi interessante q.b..

Para terminar, fizemos nova tentativa (desta vez com sucesso) para entrar no Ateneu e espreitar os 2 Bears (projeto paralelo de Joe Goddard dos Hot Chip e Raf Rundell). Apostando num som mais pesado do que a banda de Goddard, a pisar os territórios do 2-step e house, a dupla conquistava algumas dezenas de indefectíveis da electrónica que procuravam um poiso para o final da noite. No dia seguinte, nova maratona os aguardava.

Fotos: Pedro Figueiredo e Vic Schwantz
Texto: Miguel Lopes


,