Tiago Bettencourt @ Coliseu dos Recreios: Honrar o passado, em acústico, com tons quentes e Toranja


Esta noite, todos queriam ser artistas. Esperava-se que cada pessoa se sentasse, uns sozinhos, outros em família, nas cadeiras de almofada vermelha dispostas num local que muitos demoraram a reconhecer. Estávamos nas portas do que costuma ser o backstage do Coliseu de Lisboa e seguíamos para o palco, que se estende para lá do que estamos habituados a ver num espetáculo. Voltados para onde se encontra a habitual plateia, os presentes vislumbravam o ambiente intimista, de fumaça e luzes de cores quentes, que os acolheram por mais 15 minutos de espera.

Sem mais demoras, entra Tiago Bettencourt numa sala às escuras, onde só se lhe reconhece a silhueta e o cabelo encaracolado. Ao piano tocou "X", saído da "Toca" onde Tiago se junta aos poetas. Neste tema não se ouviu a voz de Carminho, com quem partilha o tempo e a letra, mas o grão da voz de Bettencourt chegou para encher a sala. A banda, que trás um baterista, um baixista, um guitarrista e um homem de teclas e acordeão, chega ao palco com as sombras, que dela fazem parte, apontadas às paredes com raios de luz.

"Parece que o destino nos quebrou", do tempo em que Tiago tocava com os Mantha, trouxe sons country e um poema à portuguesa, com explosões de guitarra que iluminavam todo o cenário. "Ora então, muito boa noite, cheguei hoje aqui – depois de passar pela manif – e fiquei com muita pena de não estar no vosso lugar, daqui só vejo escuro." contava o cantor e ouviam-se os primeiros risos do público lisboeta; "Normalmente os nossos concertos valem 7,50€, por isso hoje, temos de tocar um bocadinho melhor", serviu de intervenção animada ao tema "Largar o que há em vão".

De forma simples, começam os primeiros acordes da canção que faz muito mais que o sol, "Canção Simples", onde se pedem "palminhas em contra-tempo". A história que se seguiu narra um episódio inspirador, no qual Bettencourt encontra uma pessoa indesejada numa saída à noite, e tudo começou com "O sinal". O rock entrou em cena e o barulho das luzes dava vontade de, embora de forma contida, "abanar o capacete". Para dar continuação às histórias inconvenientes da sua vida, Tiago comenta, "esta fiz para uma pessoa que não me parava de chatear…estou-me a expor demasiado, não estou?", num tom humorístico que durou noite adentro. "Os dois" precedeu a cantiga "Pó de Arroz", numa versão feita especialmente para uma coletânea  de Carlos Paião, que marcou o primeiro ponto alto da noite. As vozes de todas as gerações que lá se encontravam, cantavam de forma doce e coesa, um dos clássicos da música portuguesa.

"Cenário", o primeiro single de quando Bettencourt era Toranja, inundou as tábuas pretas de nostalgia. Ricardo Frutuoso, veio desses tempos para a nova formação, e tocou um grande solo de guitarra dançante. Segue-se-lhe "Espaço Impossível", uma música que dá vontade de segurar a mão da nossa cara metade e nunca mais largar. Ainda assim, Tiago e companhia tocam "Tens que largar a mão", dois pensamentos cruzados em poucos minutos que mostram o poder que uma música tem, constrói um mundo e destrói-o no minuto seguinte.

O público acompanha a voz do espetáculo, em "O jogo". Soltam-se os primeiros incentivos entusiasmados e as vozes femininas entoam a beleza da música (e o charme de quem nós sabemos…). "Esta noite trago um convidado, que cada vez que o oiço cantar, tenho vergonha do que escrevo…Samuel Úria" e eis que entra um dos homens da FlorCaveira, da música popular com chicotadas alternativas e letras que fazem das criações de Úria, um must-have. Tiago e Samuel podia bem ser o nome de uma stand-up comedy, que os próprios sugeriram, enquanto o público comentava o mesmo. Em "Já não te encontro mais", a dupla canta sobre amor perdido, em harmonias arrepiantes. "Quem reconhecer a próxima, que verta uma lágrima ou cante connosco", avisava Bettencourt antes de Úria cantar "Veio a Maria Clementina", numa classe que os dois "professores" – Úria tem carreira como professor de Educação Visual – dão a partir de uma folha com um rascunho da letra. Do projeto homónimo, canta-se "Vou ser alguém" uma canção que junta o norte à capital do país, com duas vozes que fazem esquecer as rivalidades geográficas de Portugal e aquelas que vão para lá das referencias futebolísticas.

Por entre informações insólitas, típicas de Úria, eis que a frase da noite ditou o sentimento para o que se seguia, "meus amigos, nós homens, inventámos o fogo e ficamos sossegadinhos…enquanto as mulheres desenvolvem à séculos essa arma química que são as lágrimas". "Lenço Enxuto", o terceiro tema do alinhamento do álbum "O Grande Medo do Pequeno Mundo", do cantautor nascido em Tondela, serviu de despedida e Bettencourt decidiu passear por outros caminhos. "Canção de Engate", original de António Variações, mostrou um cantor de guitarra e ombro alçado, com uma barba cerrada que cobre a sua voz rouca e que morre de amores pela língua portuguesa.

"Hey manager, take a walk on the wild side" introduziu "Só mais uma volta". E o fado que os Toranja nos cantavam, chama-se "Laços". A plateia comanda "Carta", com direito aos versos que viajam à velocidade da luz, com sílabas bem marcadas e no tempo certo, no decorrer do segundo momento alto da noite.

"Chocámos tu e eu", a vigésima música do alinhamento, fechou a atuação. Pé a bater no palco, palmas e assobios, puxaram os músicos para um regresso iniciado com "O campo". Um tema que Tiago gosta de arriscar tocar ao vivo, que lembra a cenas de um filme sombrio, onde se pede para amanhecer. O palco foi consumido por um "outro" musical, duradouro, com direito a um "bravo" final. Ao estilo Bob Dylan, "Eu esperei" fala de um sonho que arde em troca de nada.

A vontade utópica que Tiago Bettencourt tinha, de ouvir o público entoar uma canção de inicio ao fim, foi concedida com uma cábula tirada debaixo de cada cadeira. No final, ficamos a saber que o baterista tinha rachado a cabeça na pega da porta do frigorífico e com sorrisos, ouvimos "Caminho de voltar", uma música sobre cúmplices, para os cúmplices que se juntaram para este concerto.

Quem daquela sala saiu, talvez levasse na cabeça a vontade de mudar a vida, mudar Portugal…mudar o Mundo.

Fotos: João Oliveira
Texto: Sara Mónica


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