Supernada @ Misty Fest '12: tudo é possível


À chegada ao São Jorge deparámo-nos com um ambiente um pouco desolador, em que a única nota de realce era o já habitual homem "avantajado" desenhado no chão do palco. Na plateia, muito poucas pessoas responderam à chamada. Talvez nota da crise, de jogo do Benfica ou apenas da ressaca de seis concertos de Ornatos. Por entre sombras e contraluz, o certo é que no início de "Quando Tu Me Entregas" apenas um terço da sala contemplava Manel Cruz na tarola deste belíssimo instrumental.

Muitas vezes, sem intervalo entre as músicas, começa o "debitar" das canções de "Nada é Possível", o primeiro álbum editado este ano. Por entre os riffs fortes do baixo a dar início às canções ("Nada de Deus"), algumas delas bastante curtas ("Ovo de Silêncio"), o tradicional strip de Manel Cruz logo a seguir, intros em alemão e guitarras psicadélicas à lá Doors (Manel em versão "Lizard King"), navegamos por "Passar à Volta" e "Animais à Solta".

Sempre com uma secção rítmica forte e com o baixo a marcar o tom, o orgão de Eurico Amorim entra em acção em "Espuma". Entre os não-editados "Manhã de Cinzas" e "Lobos da Noite" (com um Cruz, sem rosto à contraluz, qual xamã hipnotizante), mais uma sequência de cinco músicas do último álbum, incluindo o single "Arte Quis Ser Vida" que provoca algumas reações mais enérgicas do público.

Por entre pedidos de Favaíto para o palco, dos brinquedos de Manel Cruz (telefone incluído) chega a sequência final com "Sonho de Pedra", "Pai Natal" e "Anedota" finalmente a fazer o público levantar-se para a ovação final.

Sem saírem de palco para o encore ("…já que é tão intimista…"), começa "Invisível Mundo" com um Manel Cruz "demoníaco" a sair e entrar em palco a meio, por entre socos na bateria. Finalmente "Nova Estrela", uma das músicas repescadas dos primeiros tempos da banda tornou-se num final com uma bela balada, qual nascer do sol a marcar o início de um novo dia (ou, quem sabe, de um novo culto para Manel Cruz).

Em resumo, foi um concerto frio e (demasiado) intimista, apenas intercalado pelos habituais "piropos" de um ou outro fã entre as canções, nota do culto constante por Manel Cruz. Mais do que noutros projectos (mesmo em Foge Foge Bandido) é ele que sobressai entre uma banda bastante discreta e introvertida sem grandes rasgos dignos de destaque.

É talvez o projecto mais experimental (em paralelo com uns Radiohead do antigamente) de Manel Cruz, em formato banda, e talvez por isso, tenha mais dificuldade em atingir os "micro-cultos de massas" do que uns Ornatos Violeta ou mesmo o projecto Foge Foge Bandido. Será também, talvez reflexo de o primeiro (e único) álbum da banda ter sido lançado apenas este ano, apesar de já existirem intermitentemente desde 2012.

Fotos: Vic Schwantz
Texto: Miguel Lopes


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