Super Bock Super Rock '13: reportagem do 2º dia, 19 de julho


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Ao segundo dia já o sol aparecia no Meco o que terá feito que ao chegarmos ao recinto o aspeto fosse desolador. Já todos tinham feito a caça aos brindes no dia anterior e os concertos apenas começavam por volta das 20h00 (a hora era incerta tal a discrepância entre os mais variados meios onde consultávamos os horários e a própria realidade).

Para começar, Manuel Fúria e os seus (muitos) Náufragos aqueciam uma tímida plateia no palco EDP. Mais parecendo estar na lezíria ribatejana a comandar os touros, Manuel Fúria atacou o seu primeiro álbum "Manuel Fúria Comtempla os Lírios do Campo". É pena que poucos tenham acompanhado o concerto, pois esta nova versão de Manuel Fúria é muito superior aos já interessantes Os Golpes. Visivelmente satisfeito por dividir atenções com os BRMC (de quem se confessou fã) e por tocar com a palheta de Johnny Marr, Fúria atirou-se à habitual versão de "Sonhos de Menino" de Tony Carreira e a um dueto com o omnipresente Samuel Úria.

A caminho do palco principal, os irmãos lisboetas Octapush abriam o palco Antena 3 com a sua eletrónica "fora-de-horas" de ritmos entre o urbano e o africano. Lá em baixo, os Black Rebel Motorcycle Club tocavam também num horário (e posição no alinhamento) pouco condigno com o seu rock’n’roll de tons mais negros (tal como a vestimenta), mais dado ao luar. O power trio de Peter Hayes, Robert Levon Been e Leah Shapiro apenas cativou o pouco público com as mais conhecidas "Beat the Devil Tattoo", "Whatever Happened to Rock’n’Roll" e "Spread Your Love". Pelo meio ainda o habitual cover dos The Call dedicado ao pai de Haynes falecido durante um concerto da banda e três canções do mais recente "Specter at the Feast". Mereciam mais um lugar de destaque em Paredes de Coura ou a Aula Magna repleta que tiveram há bem pouco tempo.

Depois de uns Midnight Juggernauts, quase a nem merecerem referência devido ao seu insonso kraut-rock/indie-pop que só terá agradado mesmo aos seus conterâneos presentes na plateia de bandeira australiana, assistimos ao triunfo de Samuel Úria que passou de um baladeiro solitário para um rockeiro-trovador comandante de uma banda composta pelos vários músicos da Flor Caveira. Foi indiscutivelmente um dos pontos altos deste dia, este incendiar da tenda Antena 3 e um prenúncio para mais altos vôos (palcos).

De regresso ao maior palco, deliciámo-nos com mais uma visita de Mike Patton ao nosso país. É sempre um prazer recebê-lo seja qual for o projeto que o traz cá, pois para além de um excelente músico com várias facetas é um entertainer com grande sentido de humor. Aqui com os Tomahawk projeto partilhado com Duane Denison, John Stanier e o companheiro dos Mr. Bungle Trevor Dunn, Patton comando uns Faith No More mais experimentais e mais apoiados nos beats por si criados. Foi um verdadeiro ovni que apareceu no meio de um público mais dado aos hit-singles dos Killers. Isso não esmoreceu Mike Patton que lá foi apresentando o novo "Odd Fellows" por entre recordações como "Laredo" ou "God Hates a Coward" que provocavam bocejos por entre a plateia mais jovem (logo aproveitados pelo californiano para mais uma gozação). "porra, caralho" foram as palavras mais ouvidas num português já várias vezes elogiado num concerto também a merecer mais e melhor público. A terminar um "original fado americano", isto é, a versão de George Jones: "Just One More".

No EDP, duas propostas completamente diferentes: primeiro os Clã com Manuela Azevedo sempre em forma a aproveitar para um alinhamento diferente do que são "obrigados" a fazer nas inúmeras festas pelo nosso Portugal. Por entre os hits "GTI", "H2Homem" ou "Corda Bamba" conseguiram estrear "Apolo em Ascenção" (em dueto com Samuel Úria) e "A Paz Não Te Cai Bem" (escrita por John Ulhoa dos Pato Fu) e, ainda, fazer uma versão de "Make Up" de Lou Reed. A seguir, e também com muito público, a curiosidade da estreia em Portugal de Miguel. O cantor americano de ascendência mexicano vinha mostra o porquê das muitas nomeações (e algumas vitória) nos Grammy deste ano. E conseguiu realmente mostrar que o seu Kaleidoscope Dream de 2012 tem tudo para vingar no mercado norte-americano: r’n’b/soul, um espetáculo planeado ao pormenor (para palcos muito maiores), "moves à Prince" (com quem é comparado, embora a nós nos parecesse mais um cruzamento entre Kanye West e Lenny Kravitz) e uma banda de excelentes músicos contratados (também eles dados ao espetáculo: apresentaram-se com passos de dança ao som de "Get Lucky" dos Daft Punk). Tal como em Azelia Banks, nos pareceu que a programação do festival quis fazer um brilharete ao contratar um dos artistas mais badalados do momento, mas que se revelou completamente desajustado num pequeno palco de um festival predominantemente rock (já para não falar da nossa menor apetência para estes produtos r’n’b tão formatados para o mercado americano). É caso para dizer que a qualidade existe, mas não para estes palcos…

Pelas 23h00, os ingleses Kaiser Chiefs reproduziram o seu concerto, já habitual nos nossos festivais dos últimos anos, aquecendo o público para os headliners da noite com os hits de "Employment" ("Everyday I Love You Less and Less", "I Predict a Riot", "Na Na Na Na Na", etc) e o entertainer-mor Ricky Wilson com a habitual alergia ao palco (desta vez subiu ao contentor da Super Bock, onde bebeu uma geladinha durante "Oh My God". Sempre competentes e divertidos apenas deixam a questão: alguma vez evoluirão para além disto?

Para finalizar a banda dos top of the tops: os The Killers. Com um pouco mais gente do que na noite anterior, os The Killers cumpriram o que lhes era pedido: um espetáculo visual de grande qualidade (vídeo, pirotecnia, confettis), tocaram os singles que todos conheciam da rádio e MTV, comunicaram simpaticamente com o público e satisfizeram a audiência feminina (os gritinhos eram insistentes) e masculina (as luzinhas distribuidas pela EDP foram um sucesso). A abrir com "Somebody Told Me", a passar por uma versão de "Shadowplay" dos Joy Division e a acabar com um encore de luxo ("Jenny Was a Friend of Mine", "When You Were Young" e "Mr. Brighside") não houve como não elogiar, no mínimo, a competência da banda de Las Vegas. Até um Brandon Flowers, parecendo saído de um anúncio dos anos 50, provou ser um melhor entertainer dentro desta banda do que nas aventuras a solo que já por aqui tinham passado. Num festival rock dado às suas mais variadas mutações, o pop-rock teve nos The Killers uma boa escolha para o representar.

Nota final para a ausência no palco Antena3 @ Meco do nome forte da eletrónica Ricardo Villalobos devido a doença.

Fotos: João Paulo Wadhoomall
Texto: Miguel Lopes


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