Silence 4 na Meo Arena: O Quarteto Fantástico [fotos + texto]


Silence 4 na Meo Arena: O Quarteto Fantástico [fotos + texto]

Numa noite de regressos e de amores antigos, fez-se da Meo Arena um recinto de sonhos. David Fonseca, Sofia Lisboa, Tozé Pedrosa e Rui Costa juntaram-se uma última vez no mesmo palco que há 15 anos os tão bem recebeu.

Num cenário teatral, com cortinas vermelhas ao jeito da capa de "Only Pain Is Real", o quarteto fantástico juntou-se, começando o espectáculo com Sofia emocionada a agradecer a presença de todos, arrancando para "A Little Respect", um tema original de Erasure mas que tão bem soa nos arranjos de Silence 4.
"Borrow" ouve-se pouco depois, acompanhada da entrada em palco de um aquário gigante com um peixe dourado dentro dele, e de uns pares de cadeiras suspensas no ar, mesmo por cima do comité de músicos. "Sextos Sentidos" contou com uma presença especial quando Sérgio Godinho entra em palco para acompanhar a banda numa música da autoria do mesmo.
"My Friends" arrancou mais um momento de excitação do público com um carro a descer do cimo do palco, encostando-se "às boxes" durante o resto do concerto, levantando “voo” de vez em quando.

"Angel Song" surge num momento em que já todos os presentes estavam mais do que rendidos aos senhores do palco. Sofia, o anjo da noite, explica que houve uma altura em que pensava que nunca mais iria cantar a sua parte desta canção – «Hello. Don’t be scared. I want you to know, you’re not dead.» – com medo de não vencer a leucemia que se apoderou do seu corpo mas não da sua vida. "Se eu não pudesse cantar a minha parte, queria que fossem vocês a cantá-la" – e assim foi. Sofia cantou mas o público não se calou, e acompanhou cada palavra, sem ponta de timidez.

Em tons constantes de vermelho, o cenário construía-se música após música, adaptando-se a todo o momento. Ao carro e às cadeiras suspensos no ar, juntou-se um farol gigante, que iluminava os balcões como se de uma noite de mar bravo se tratasse. "Eu Não Sei Dizer" mostra-nos um David Fonseca tímido e inseguro, com o mesmo a contar a história de como surgiu. "Um dia cheguei ao sítio onde ensaiávamos e disse-lhes que tinha escrito uma música em português mas que tinha muita vergonha de cantar à frente deles. Então pedi ao resto da banda para ir para outra sala, uma sala pequenina, onde eles me iam ouvir cantar. Agora já não há dessas vergonhas e vamos cantá-la aqui, frente a frente". Cantou-se em português (e bem) antes de se partir novamente para o inglês com "Only Pain Is Real", tema que partilha o nome com o segundo álbum da banda, de 2000. A sala escureceu, e o tema termina apenas com a silhueta dos músicos em palco, e com as cadeiras suspensas que os acompanharam durante todo o espectáculo.

A presença de um mini-palco no centro da Meo Arena denuncia o regresso dos músicos em breve. E eis que numa mini-viagem atribulada entre o palco principal e o improvisado, os quatro fantásticos chegam ao destino do encore. A razão da mudança é explicada por David, justificando que aquele palco era mais ou menos do tamanho da sala de ensaios onde a banda se costumava juntar.
Dando o mote para o momento mais comovente da noite, Sofia faz menção à irmã que lhe salvou a vida dedicando-lhe uma versão de "Invincible2 de Muse. “A minha irmã motivou-me e deu-me a mão. Salvou-me a vida quando me doou a medula dela”, aproveitando para apelar a todos os presentes para ajudarem a salvar vidas e doarem as suas medulas. Ainda antes de o tema começar, surge a irmã de Sofia, por entre a penumbra do público, subindo ao mini-palco, abraçando a vocalista por entre lágrimas de felicidade e emoção.

Para qualquer lado que olhássemos, víamos quem limpasse as lágrimas da cara; alguns com vergonha, outros sem problema nenhum, mas todos emocionados. Tentando sair da bolha emotiva onde já todo o recinto tinha mergulhado, David aproveita para apresentar alguns temas antigos que não fizeram parte dos álbuns que lançaram, como "Self Sufficient" e "Silence Becomes It", que apesar de ter dado o nome ao disco, foi deixado de fora por teimosia.
Para "Goodbye Tomorrow" um pedido especial foi feito. Telemóveis. Luzes de telemóveis foram o requisito pedido por David para iluminar a escura sala, já sem luzes dos cenários teatrais e apenas com alguns focos sobre os músicos. O pedido foi concedido e de repente a arena encheu-se de estrelas para acompanhar uma das favoritas de todos.

E como não há um encore, sem dois – nem três – o segundo e o terceiro encore tiveram lugar novamente no palco principal. "Search Me Not" e "Breeders" enchem as primeiras ovações antes de darem lugar aos representantes da Liga Portuguesa Contra o Cancro, chamados ao palco pela banda. A propósito da mini-digressão e reunião do quarteto, foram doados 30 mil euros à organização, por via das receitas dos quatro concertos realizados.
La piece de resistance chega com as reprises de "Borrow", "My Friends" e "A Little Respect" para abrilhantar o prato final da noite. Sofia desceu do céu até às grades para cumprimentar o “povo” da primeira fila que tanto a acarinha. E finda-se o espectáculo. Ou não. Mais uma saída que leva a mais uma entrada com a repetição de "Angel Song", com a voz de um anjo a cantar na terra.

Encheram-se 18 mil corações de memórias com 15 anos de saudade, num concerto que em nada desiludiu os presentes – e os ausentes. Voltem sempre, "Fantastic 4".

Fotos: João Paulo Wadhoomall
Texto: Sara Gomes


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