NOS Primavera Sound: dia 2 (5/06), com Patti Smith e Jungle


NOS Primavera Sound: dia 2 (5/06), com Patti Smith e Jungle

Ao segundo dia de NOS Primavera Sound, registou-se a maior enchente do festival. O dia que apresentava dois dos nomes mais sonantes da edição deste ano, viu uma multidão chegar bem cedo ao parque da cidade, e ainda o sol ia bem alto quando a Banda do Mar se apresentou para animar o ambiente com o seu som descontraído e descomprometido. A dupla Mallu Magalhães e Marcelo Camelo espalha boa disposição, e parece ser muito acarinhada pelo público português, que recebeu com a genica que a tarde pedia temas como "Mais Ninguém" ou "Velha e Louca", original de Mallu.

Enquanto o grupo luso-brasileiro atuava no palco NOS, já se faziam ouvir no palco ATP as melodias árabes de Yasmine Hamdan. A sombra proporcionada pelas árvores que ladeiam o mais interessante palco do festival estava repleta de curiosos que se refrescavam e recebiam com agrado os temas que a libanesa tinha para apresentar, e embora fosse uma desconhecida para quase todos, pareceu conquistar alguns novos seguidores com esta atuação.

De regresso à encosta principal do parque, encontramos Howe Gelb e os seus Giant Sand a recordar o lado mais country do rock. Toda a postura da banda, incluindo a roupa e os acessórios, nos remete para o sul dos Estados Unidos, e para a ténue fronteira cultural entre o purismo do rock e os ritmos mais latinos vindos do sul do continente, e é precisamente isso que a banda tem para nos oferecer enquanto aguardamos a chegada do primeiro grande nome do dia.

À hora marcada, Patti Smith sobe ao maior palco do festival para saudar a colina repleta de gente que aguardava a reprodução na íntegra de Horses, o primeiro álbum que catapultou a norte-americana para a fama e a transformou num dos ícones dos anos 70. De longos cabelos brancos ao vento, a cantora provou que não há idade para a rebeldia, e atacou "Gloria", com o fulgor que o momento exigia, agarrando desde aí todos os fãs que cantavam os temas do marcante disco de 1975.

Foi curioso ver como 40 anos depois, muitas das letras de Patti ainda fazem sentido, e a sua força permaneceu intacta. Tanto assim é, que depois de apresentar todo o álbum Horses, a cantora/poetisa continuou o concerto para não deixar o festival sem tocar o seu maior êxito comercial. "Because the night" elevou o sing along a níveis que a edição deste ano ainda não tinha conhecido, e o brilho nos olhos das gerações de 70/80 foi mais notório do que nunca.

Naquela que é, habitualmente, a hora de rumar à zona de alimentação, subia ao palco Super Bock o sueco José Gonzalez, para embelezar ainda mais o pôr do sol no parque da cidade com a sua voz inconfundível. E em vez de alguns corpos errantes deitados pela relva, o que o músico encontrou foi um recinto repleto até ao topo, desejoso de não perder pitada de um dos concertos que se viria a revelar como dos mais bem conseguidos de todo o festival.

É na simplicidade que Gonzalez aposta tudo, e é com ela que conquista um espaço tão vasto ao ar livre. Melodias doces, voz subtil, e letras bem buriladas, agarram uma audiência que não se coibiu de abanar vagarosamente a cabeça ao som de "Leaf Off/The Cave" ou "Teardrop", a bela cover de Massive Attack. Para final de concerto estava reservada "Heartbeats", um original dos também suecos The Knife, que era provavelmente o tema que a maior parte dos presentes esperava ouvir.

Para afastar o lado mais morno, e entregar uma energia punk ao festival, chegavam os The Replacements. A banda de Minneapolis não esteve com meias medidas, e aplicou-se com todo o vigor que a idade permite, acrescentando mais uma prova à ideia que Patti Smith já tinha deixado algumas horas antes: não há idade para se sentir música, seja ela mais suave ou mais pesada.

Os Belle and Sebastian regressaram a Portugal para um concerto intenso, 60 minutos de hinos indie perante uma audiência numerosa que dançou de princípio ao fim do concerto da banda escocesa.

Pela meia noite, todos os palcos se calaram e a música deixou o parque da cidade, enquanto se ultimavam os preparativos para receber o nome maior da noite: Antony and The Jhonsons. E assim que subiu ao palco, Antony provou que este concerto tinha tudo para ser dos mais memoráveis de todas as edições do festival portuense… não fosse um público um pouco deslocado da ideia do cenário que o espetáculo pedia. A voz perfeita do inglês, as projeções que acompanham os temas, e a grande atuação da orquestra que apoia e dá corpo ás canções mereciam menos conversas paralelas, menos ziguezagues pela multidão, e mais silêncio, mais contemplação, mais espaço para desfrutar do que estava a ser oferecido a todos os que se deslocaram para a frente do Palco NOS.

Indiferente a tudo isto, o britânico apresentou temas como "Cripple and the Starfish", "Blind" numa versão menos dançável do que aquela que protagoniza com os Hercules and Love Affair, e "You are my sister" num dos momentos altos do concerto. Para o final estava guardada "Hope There's Someone", um hino à esperança que encheu os corações dos que quiseram verdadeiramente ouvir o poderio vocal de Antony Hegarty.

De modo a afastar os sentimentos mais melancólicos e sombrios, rumamos até ao concerto dos Jungle (na foto de artigo), para fechar a noite em beleza. Apenas com um trabalho editado no ano passado, os britânicos presentearam o público com uma demonstração de funk e soul que deixaria corados de vergonha muitos dos nomes que brilham pelas pistas de dança atuais. Com sete elementos em palco, fazendo uso de instrumentos como o baixo e bateria para criar um groove fora de série, os Jungle não deixaram ninguém indiferente e todos dançaram ao som de "Julia", "The Heat", e das muito aguardadas "Busy Earnin'" e "Time", que fecharam em beleza o segundo dia do festival, num tom de grande festa.

Fotos: Gustavo Machado/Oporto Agency
Texto: Ana Isabel Soares


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