Nos Alive'14: dia 1 (10/07), com Arctic Monkeys, Imagine Dragons e The Lumineers


Nos Alive'14: dia 1 (10/07), com Arctic Monkeys, Imagine Dragons e The Lumineers

Mais um ano, mais uma edição do Optimus Alive. Perdão, NOS Alive. O festival urbano mais famoso de Portugal ganhava este ano um novo nome derivado da fusão entre a ZON e a Optimus. A uma primeira instância é um nome que se estranha, mas que também se entranha.

Muda o nome, mas não muda a qualidade do cartaz. A edição deste ano apresenta um cartaz para, mais uma vez, agradar às massas. Neste primeiro dia, o destaque ia, obviamente, para as atuações dos Imagine Dragons (promovidos ao palco NOS) e aos cabeças de cartaz Arctic Monkeys. Um dia esgotado, 55 mil pessoas no recinto (números da organização). Mas já lá vamos.

Este vosso escriba chegou ao recinto do NOS Alive numa altura em que Ben Howard fazia as honras de abertura do maior palco do festival. E, do que conseguimos ouvir, o músico e a sua banda conseguiram entreter com relativo sucesso.

Falamos em relativo sucesso porque, infelizmente, e segundo nos contaram, o britânico deparou-se com imensos problemas ao nível de som que mancharam a sua atuação, mas que também iam sendo resolvidos ao longo da mesma. Na área onde a equipa da Oporto Ageny se encontrava, eram os estrangeiros que mais vibravam com a folk do músico, mas também eram muitos aqueles que aproveitavam para meter a conversa em dia. Howard teve uma agradável mancha de público à sua frente e queremos acreditar que todos escutaram com atenção o seu tema mais conhecido, "Keep Your Head Up". Um concerto simpático e agradável.

Nesta altura do campeonato já todos conhecem o sucesso "Ho Hey", dos americanos The Lumineers. Mas desenganem-se aqueles que pensavam que este seria o único tema conhecido (e que provavelmente aquele que todo queriam ouvir) do trabalho da banda do Colorado. Nada disso. E este foi um concerto que correu de feição.

Nesta altura já muita gente se concentrava em frente ao palco NOS (muito por culpa das atuações seguintes) e foram milhares os que se deixaram encantar nesta estreia dos The Lumineers em território nacional.

Em palco, três lustres de grande porte pendurados no teto serviam de adereços para uma banda que abria a contenda com "Submarines", single do álbum de estreia (e único até à data) The Lumineers. Talvez tenha sido esta a razão para a banda se atirar a uma catita versão de "Subterranean Homesick Blues", de Bob Dylan, e a uma cover de "Ain’t Nobody’s Problem", um tema original de Sawmill Joe.

A esta altura, e já depois de termos escutado o hit "Ho Hey" (que foi interrompido por instantes pelo vocalista Wesley Schultz para pedir aos presentes que estes baixassem os telemóveis), percebemos que os The Lumineers são mais que uma banda de um só hit. E isso percebeu-se na dedicação com a qual o público entoava os temas da banda americana – mais uma vez os estrangeiros ajudaram no caso. O final do concerto dava- com "Elouise", tema que contou Schultz a cantar em cima de uma no meio da plateia e com o acordeonista em cima das vigas da torre de som.

Um concerto competente e risonho numa boa estreia em palcos nacionais.

Seguir-se-ia aquela que, porventura, seria uma das bandas mais esperadas do dia e também uma das responsáveis pelo dia esgotado: os Imagine Dragons. Estavam no palco Heineken, mas a organização resolveu promovê-los ao palco NOS. Percebe-se porquê. Afinal, já muitos milhares centravam atenções no que se iria ver seguidamente no palco principal. Há quem diga que os Imagine Dragons são daquelas bandas que vão a tudo. De certa forma isso até funciona, pelo menos comercialmente. A verdade é que os poderíamos confundir com uma série de bandas, isto é, a identidade ainda não está definida, mas eles trabalham para isso.

O estilo que a banda de Las Vegas apresenta faz-nos lembrar um rock ligeiro, com laivos de pop, mas que parece estar na moda e que agrada às massas. Aliás, quem não se lembra do concerto do ano passado que esteve originalmente marcado para o Armazém F (ex-TMN ao Vivo) e que foi rapidamente promovido ao Coliseu de Lisboa devido à popularidade do grupo.

Ainda antes da atuação começar, alguém ao nosso lado comentava que "estes gajos deviam estar proibidos de tocar aqui". Os comentários não são de ódio, mas antes porque o tema "Top of the World" fora utilizado na campanha de uma conhecida operadora de comunicações.

Não obstante, explosão de alegria e muitos berros assim que os elementos da banda entraram em palco. Com três elementos na percussão, a atuação começava com "Fallen Tiptoe", sendo logo seguida por "Hear Me", muito celebrado. Ainda ouvimos temas como "Demons" e "Who We Are", mas o que talvez muitos não esperavam era ouvir uma cover de "Song 2", original dos Blur. E não envergonhou ninguém.

Nota também positiva para o vocalista Dan Reynolds, sempre disponível e interativo com o público. "Sentimos a vossa falta Portugal" e é "É tão bom estar de volta" foram algumas das frases saídas da boca de Reynolds, as quais foram retribuídas com muita histeria por parte dos fãs. Existia muita energia no ar.

Claro, foram temas como "It´s Time" e "On Top of the World" (em que muitos aproveitaram para tirar a bela da selfie e gravar um vídeo para depois colocarem nas redes sociais) que se deram as maiores explosões de excitação. No final, "Radioactive", pois claro, a dar o maior climax à atuação dos americanos. Temos a certeza que foi uma atuação que fez a delícia dos mais jovens. E também nós ficámos agradados. Resta saber se os Imagine Dragons são uma daquelas bandas de consumo imediato ou se irão perdurar no tempo.

Menos sorte tiveram os Interpol, formados em 1997. A culpa não foi deles, muito pelo contrário. A verdade é que não faz muito sentido colocar uma banda capaz de discos tão fantásticos como Turn On The Bright Lights num dia onde tocam Imagine Dragons e Arctic Monkeys, bandas que tendem a agradar a toda uma nova geração recente de público jovem. Lá está, o público, que pouco ou nada ajudou para tornar o ambiente favorável. Aliás, muitos resolveram circular pelo recinto assim que os Imagine Dragons terminaram a atuação, fazendo com que muitos outros conseguissem ficar perto dos Interpol. Faz de conta que estes que ficaram eram os verdadeiros fãs da banda originária de Nova Iorque. Ainda assim, um público murcho, frouxo e pouco ruidoso.

Mas deram um bom concerto, o mérito ninguém lhes tira. Diga-se de passagem que os nova-iorquinos não são aquele tipo de banda que provocam explosões de entusiasmo; as canções são cerebrais, mas também apaixonantes. Alguém me disse que os Interpol eram "muito parados" ao vivo. Discordo mas, de facto, este não é um concerto para qualquer um.

Confessamos: ficámos assustados com a primeira música apresentada, "Say Hello To The Angels". Havia algo na voz do vocalista Paul Banks que não estava nas melhores condições mas, felizmente, a coisa lá se resolveu.

A atuação no NOS Alive, além de servir para recordar alguns temas da discografia da banda, mostrou também alguns temas do novo registo El Pintor (sai em setembro e do qual a capa servia como fundo de palco na atuação). Portanto, "My Desire", "Everything" e a belíssima "All The Rage Back Home" deram um ar de sua graça em território nacional. A sonoridade é a mesma de sempre, o que demonstra uma identidade tão bem definida, e o novo disco, apesar do nome estranho q.b., promete. E promete muito.

Ao final de cada música, Banks ia agradecendo com um "obrigado" num português praticamente perfeito, mas nem assim conseguiu roubar muita da atenção ao público. Já temas como "Evil", "Narc", "Lights" ou "Leif Erikson" evidenciavam a boa forma do grupo e a voz bem cuidada de Banks. O final, para alegria de muitos e para tristeza de alguns, ficaria marcado por um acrisolada "Slow Hands", do álbum Antics de 2004.

Uma atuação densa e gentil que merecia, sem sobra de dúvidas, outro público. Uma aposta deslocada da organização para um público que não os percebeu e num ambiente que não era, de todo, indicado para os receber. Fica para uma próxima.

Este não terá sido o melhor concerto dos Arctic Monkeys em terras lusas, mas foi aquele para o qual tocaram para maias gente. Uma coisa é certa: nesta sétima passagem por terras lusas, a banda originária de Sheffield pode ter perdido alguma efervescência e rebeldia, mas ganhou em sensualidade e mestria.

Os cabeças de cartaz regressavam assim a Portugal um ano após terem atuado no Meco. A nova visita está, obviamente, relacionada com a apresentação do exuberante AM, considerado por muitos como o melhor disco dos Arctic Monkeys. E, se não estamos em erro, apenas faltaram dois temas para que AM fosse tocado na íntegra. Impressionante.

Já lá vai o tempo, mais precisamente em 2006, ano em que eram pequeninos e faziam a sua estreia suada num Paradise Garage. Anos depois, apresentam-se como uma banda talhada para atuar em grande arenas e estádios, com um novo rock condensado e sintetizado capaz de agradar a toda uma nova geração, mas também a fãs que os acompanham desde o início. Uma pequena ressalva aqui: o público presente no recinto do NOS Alive andava, muito provavelmente, entre a faixa etária dos 16-24. Um claro sinal de que a nova música dos “macacos” atravessa gerações.

É que eles já não são novatos; já contam com cinco álbuns de estúdio na sua carreira e dão sinais de não quererem parar por aqui. Alex Turner, Matt Helders, Jamie Cook e Nick O’Malley  eram adolescentes. Hoje são senhores.

Quanto ao concerto, o erótico "Do I Wanna Know" abriu o espetáculo e, logo aí, esta mostrou ser uma das faixas mais celebradas, com todo o público a entoar a letra da canção. Logo a seguir com o mais recente single "Snap out of it" e "Arabella" e, entretanto, Turner mostrava como se dançava. Turner, um gingão que hoje em dia se veste como se fosse um ícone de moda, não foi particularmente comunicativo com o público. Mas não são de conversas que se fazem concertos.

Como já falámos, a nova identidade dos Monkeys deu-lhes prós, mas também contras. Ou seja, o novo AM (que teve perninha de Josh Homme, dos Queens Of The Stone Age), deu-lhe mais sentido de espetáculo, contudo, oferece também menos guitarradas e momentos de exaltação. São mais díspares. E toda a gente parece gostar.

Como é óbvio, nem só do mais recente álbum se faz um concerto da banda de Sheffield. Aliás, a setlist está toda construída para ir revisitando a discografia da banda. E, se temas como "Brianstorm", "Dancing Shoes" e "I Bet You Look Good on the Dancefloor" (dedicado às senhoras) metem a malta a dançar, outros como "Knee Socks", "No.1 Party Anthem" e o desgostoso "Why’d You Only Call Me When You’re High" vêm acalmar os ânimos e mostram um grupo menos veloz, mas mais sexual e direto.

Ainda escutámos "Fluorescent Adolescent", a mostrar a (já inexistente?) fibra de adolescente destes rapazes e "505", que aqui serviu como última tema antes do encore.

Regressados ao palco após breves instantes, Turner e companhia presentearam mais três temas nada anómalos: "One For The Road", "I Wanna Be Yours" e um efusivo "R U Mine". Sim, do badalado AM.

Sem sombra de dúvidas que este foi o melhor concerto do dia, até porque, à partida, este era uma noite ganha para os Monkeys… a não ser que acontecesse uma hecatombe. A banda não se perdeu; cresceu, evoluiu, amadureceu. Tomara que muitas bandas de rock fossem assim.

Fotos: Diogo Baptista e Vic Schwantz/Oporto Agency
Texto: Alexandre Lopes c/ Oporto Agency


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