NOS Alive: o dia em que um festival português teve 5 headliners [review, dia 14] - Noite e Música Magazine

NOS Alive: o dia em que um festival português teve 5 headliners [review, dia 14]


NOS Alive: o dia em que um festival português teve 5 headliners [review, dia 14]

O último dia do NOS Alive 2018 era quase unanimemente considerado como o que fazia jus ao slogan do festival: O melhor cartaz, sempre! Era o dia onde se poderia considerar que haviam 5 headliners. Não que estejam hoje em dia ao mesmo nível de maturidade ou popularidade, mas todas têm estatuto para figurar no topo dos cartazes dos maiores festivais da atualidade. Tivemos recordações do movimento grunge, reis do indie rock, guitar heroes e os everybodys' heroes.

Começando pelo início de tarde, e já depois da banda de intervenção The Last Internationale, os Alice in Chains, banda referência do movimento grunge de Seattle, fez-nos recuar aos finais dos anos 80 e inícios de 90. Já há muito tempo sem o seu vocalista original Layne Staley (falecido em 2002) e com um William DuVall sem carisma no seu lugar, são ainda os fundadores Sean Kinney e especialmente Jerry Cantrell que mantêm a chama viva. Muitos ainda os quiserem ver e o início de tarde no Palco NOS teve das maiores enchentes de que há memória nestes horários. Ninguém se esqueceu das letras de "Would?", "Man in the Box" ou "Rooster".

O palco continua a encher com os escoceses Franz Ferdinand. Com o último álbum Always Ascending para apresentar, mas apenas uma hora para tocar, o muito sorridente Alex Kapranos e a sua banda optaram por um alinhamento dançável e sem grandes abrandamentos do início ao fim. O início com "Do You Want To" disse logo ao que vinham. "Always Ascending", "Glimpse of Love" e "Lazy Boy" esgotaram a quota do novo registo e daí partiram uma sequência arrebatadora que começou com "Walk Away", passou por "Michael" e "Ulysses" e terminou com os estrondosos "Take Me Out" e "This Fire" para deixar o público a "arder" por mais.

Já depois das nove da noite o guitar hero Jack White sobe ao palco. Sabendo que está num festival com muita gente à espera de Pearl Jam e, talvez, com alguns problemas na voz, White apostou num alinhamento feito à base de músicas das suas várias bandas. Dos White Stripes ouvimos a versão country de "Hotel Yorba", "We're Going to Be Friends", "Icky Thump" (com alvo em forma de Trump nos ecrãs) ou o hino "Seven Nation Army" para terminar. Mas o cantor residente em Nashville ainda teve tempo para passar pelos The Racounters com "Steady as She Goes" e "Broken Boy Soldier", e pelos Dead Weather (banda que tem com Alison Mosshart dos The Kills) em "I Cut Like a Buffalo". Do novo álbum a solo apenas ouvimos a abrir "Over and Over and Over", "Corporation" e "Connected by Love". Esperemos que volte em nome próprio para repetir o magnífico concerto de há seis anos.

Chegados ao momento pelo qual 90% do público presente estava no Passeio Marítimo de Algés, os Pearl Jam subiram ao palco para dar início a mais um "concerto da vida" para muitos. Mais uns naturais de Seattle que são objeto de devoção para muitos. Mais óbvio nos agora quarentões, mas que tocam de igual maneiras todas as outras gerações. Pode se dizer que os Pearl Jam são (e serão) uma daquelas bandas intemporais e referências para os mais novos. Embora não o conhecendo fora dos palcos, todos os dirão, Eddie Vedder é o mister nice guy: bebe connosco, surfa connosco, canta connosco e emociona-se connosco. Os cinquentões Pearl Jam continuam a tocar com a mesma emoção e energia dos já longínquos anos 90 e é isso que lhes dá uma garantia de já terem o jogo ganho antes de entrar em palco.

Apesar da histeria, o início fez-se de mansinho com "Low Light" e "Better Man". Recuando ainda mais até Ten e Vs não podiam faltar "Even Flow", "Jeremy" ou "Daugher".  A velocidade chegou com "Mind Your Manners" e a política com "Do the Evolution". Também com mensagem político-social viria mais à frente "Can't Deny Me", feita recentemente durante as marchas do movimento #metoo. A primeira cover da noite foi "Interstellar Overdrive" dos Pink Floyd a anteceder a única referência a Backspacer de 2009 com "Unthought Known" e a repescagem de "Down" do álbum de lados B Lost Dogs.

Para a sequência final, juntaram-se ainda "Jeremy", "Black" e "Rearviewmirror" para que o público continuasse o seu coro ininterrupto, por entre "In My Tree" e "Lukin" de No Code. Para o longo encore ficaram reservadas as versões de "Imagine" de John Lennon em mais um dos belíssimos momentos da noite e "Comfortably Numb" dos Pink Floyd. Já depois de "Porch", a canção que poderia ser o hino do festival, "Alive" e a surpresa Jack White a acompanhar na guitarra "Rockin' in the Free World", a canção-mensagem do mais veterano Neil Young que fechou as duas horas e meia de concerto.

Referência final do Palco NOS, vai também para os também prejudicados pelo adiantado da hora, MGMT. Começando já perto das 3 da manhã e com metade do público a caminho de casa os geeks do Connecticut não conseguiram mostrar da melhor forma o seu regresso ao synth-pop mais dançável com "Little Dark Age" deste ano e que os tornou conhecidos, depois pelas passagens pelo rock psicadélico com o álbum anterior. Foram já poucos que conheceram as cinco músicas que tocaram do novo álbum ou dançaram ao som de "Time to Pretend", "Electric Feel" ou "Kids". Merecerão mais numa próxima oportunidade.

No último dia do Palco Sagres o destaque vai para os At The Drive In que foram prejudicados pela extensão do concerto dos Pear Jam no Palco NOS. Não podendo começar antes do término do outro palco, tiveram de encurtar a sua atuação para desânimo dos fãs mais acérrimos que se dedicavam ao mosh juntos às grades. A banda texana, reunida pela terceira vez desde 2016, também não se coibiu de mostrar o desagrado com a situação no final do concerto, mas até lá cumpriu o que deles se esperava: muita energia, muito suor e a apresentação do último álbum In-ter-a-li-a de 2017 intercalado com muitas músicas de Relantionship of Command da era pré-separação.

O balanço que se pode fazer da edição de 2018 do NOS Alive é de que se pode ter realmente o melhor cartaz (de) sempre, mas talvez apenas num dos palcos pois, ao apostar todas as fichas no Palco NOS, o habitualmente mais interessante segundo palco (Heineken/Sagres) ficou este ano aquém das expectativas. Não nos lembramos dos concertos finais deste palco terem apenas um terço da lotação da tenda com espetadores a assistir como em At the Drive-in e Perfume Genius (duas bandas com muitos fãs). Mas, para o ano há mais, nos dias 11, 12 e 13 de Julho.

Nota: Não foi permitida a captação profissional de imagens dos concertos de Alice in Chains, Jack White e Pearl Jam à equipa de reportagem da Noite e Música Magazine.

Foto Pearl Jam: NOS Alive

Equipa Noite e Música Magazine no NOS Alive
Fotos: Eduardo Salvador
Textos: Miguel Lopes
Edição: Nelson Tiago