Maria Rita @ Meo Arena: redescobrindo Elis Regina


mariaritameoarenaMaria Rita, uma das grandes vozes da música Brasileira da atualidade, subiu ao palco da Meo Arena (antigo Pavilhão Atlântico), em Lisboa, no âmbito da digressão "Viva Elis".

Neste espetáculo a artista apresenta o álbum "Redescobrir" (editado em CD e DVD, em dezembro de 2012, em Portugal), um trabalho dedicado aos grandes hinos da música Brasileira, consagrados na mítica voz de Elis Regina.

"Viva Elis" nasceu como um pequeno projeto encabeçado por João Marcello Boscoli (irmão de Maria Rita), em homenagem aos 30 anos da morte de Elis Regina, mas a enorme recetividade do público com a homenagem à Elis acabaram por dar origem a um álbum e uma digressão de enorme sucesso.

Começaram-se a ouvir os aplausos reivindicativos do público não passavam ainda 15 minutos da hora prevista para início do espetáculo. Maria Rita não se fez esperar. Serena e doce, envolta numa imensa túnica branca, que combinavam com os discretos origamis suspensos no palco, deu voz aos primeiros temas da noite: "Imagem", "Arrastão" e "Como os nossos Pais".

Estas canções apresentaram a intenção da digressão, que a artista não tardou a confirmar numa longa e sentida introdução: "esta é uma homenagem à maior cantora que o Brasil jamais terá". Visivelmente comovida confessou ainda: "hoje serei mais filha do que cantora", e o público respondeu com palmas proporcionais à expressão dos seus sentimentos e às referências a Elis. Esse registo de emoção e palmas foram por fim dirigidos à banda composta por Tiago Costa (piano/teclados), Sylvinho Mazzucca (contrabaixo), Davi Moraes (guitarras) e Cuca Teixeira (Bateria).

Nas canções seguintes, ora revisitávamos Elis, nos sons agudos, prodigiosos e afinadíssimos, ora redescobríamos Maria Rita, nos sons graves e harmoniosos, com que dava uma nova roupagem, às vezes jazzística, a algumas músicas, como: "Vou Deitar E Rolar (Qua Qua Ra Qua Qua)".

Nas canções "Querelas do Brasil", "Menino" e "Onze Fitas" Maria Rita fala da faceta interventiva de Elis e da sua consciência cívica, fazendo uma associação com os atuais protestos do Brasil, e lembrando que: "ela interveio e não calou aquilo que outros (agora) que têm essa liberdade calam".

Seguindo um registo muito direcionado à homenagem e muito organizado (porventura demasiado estruturado), com as músicas "Morro Velho" e "O Que Foi Feito Devera (De Vera)", Maria Rita relembra alguns episódios e as amizades que herdou da mãe, como a de Rita Lee (manifestando o quanto lhe agrada que pensem que tenha sido dedicado a ela o seu nome, ainda que não se possa confirmar) e de Milton Nascimento por respeitar de forma tão leal a privacidade da mãe.

Depois de uma breve pausa Maria Rita regressa ao palco, com o vestido enfeitado de estrelas denunciando os hinos que se seguem: "Fascinação", "Romaria" e "Madalena". O público rejubila, mas não tanto quanto o que se poderia esperar. A plateia do pavilhão ainda que encurtada, não favorece um espetáculo tão intimista e algumas pessoas (acompanhantes, apenas) denotavam já alguns sinais de cansaço.

Para o público (ou essa parte em cada um de nós) de Elis Regina (para quem "Cantar, para mim, é sacerdócio. O resto é o resto") recordar as suas músicas saberá sempre a pouco. Para o público de Maria Rita este foi certamente um trabalho que revelou uma grande coragem, o desvinculo e a aceitação da principal herança de Elis, uma grande voz.

Fotos: João Oliveira
Texto: Paula Linhares


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