Marcelo Camelo @ Teatro Tivoli: O monólogo universal, de violão na mão


Quarta-feira à noite, a chuva deu descanso e o tempo aqueceu, em jeito de boas vindas ao artista Marcelo Camelo. A sala demorou a ficar completa mas as cadeiras do Teatro Tivoli foram todas preenchidas. Faltava a cadeira em palco, disposta num cenário minimalista, prometida ao cantor, de guitarra ao colo.

As palmas que o receberam, calaram-se em respeito pelo primeiro acorde de "Luzes da Cidade". Uma serenata doce – para a sua esposa, Mallu Magalhães – que apresentou Marcelo a um público que o conhecia melhor que ninguém mas que, mesmo assim, não lhe acalmou o "certo nervoso" de estar a tocar para Lisboa.

O mote do concerto explorava a "Voz e Violão" e todas as letras do seu amor perdido e achado. "Dois em um" antecedeu o tema "Casa pré-fabricada", do tempo em que Camelo era um dos Los Hermanos. Os incondicionais cantores na plateia ouvem-se de levezinho, a acompanhar a guitarra clássica sentada no cenário. Em "Pra te acalmar" Marcelo parece um jovem Caetano Veloso, sozinho, a cantar a bossa nova bonita e numa voz que, de um sussurro, oscila até um tom grave e sonoridades latinas.

Despem-se as canções e revisitam-se álbuns de carreira, um deles, "Ventura" de 2003, trouxe à sala de espetáculos "Samba a dois". Nos tempos em que Marcelo – conhecido pelos amigos como Napão – era estudante de Jornalismo, houve um ensaio casual que viria a fundar uma das principais bandas de rock do Brasil, com sabores metálicos e cariocas. "Pois é" foi tocada pelos Hermanos de música e para os irmãos presentes no Tivoli, "Doce Solidão" fez as delicias da casa. "Posso estar só mas sou de todo o Mundo", foi o sentimento que resumiu a noite, até aquele momento. E num contraste entre silêncios e sorrisos, as palmas pareciam vir de outro universo, entusiastas e estridentes.

Num banco vazio, sentou-se Thomas Rohrer, pronto para dar um novo ar a respirar, em dinâmicas ousadas, de metal, charme e cordas nostálgicas. Uma rabeca, parente próximo do violino, tocou o segmento hipnótico, do qual fizeram parte "Janta" – que soltou gritos de emoção e palavras em inglês; "Dois Barcos" – começa num rugido, protagonizado pelo instrumento de Rohrer, o cérebro que contrasta com o coração apaixonado, personificado pelo violão de Marcelo;  "Fez-se Mar" e "Porta de Cinema" – tema de embale hispânico e humorista, herdado do seu avô, Luís Souza, compositor nas horas vagas. Os copos de água que iam acalmando as cordas vocais de Marcelo, serviram de fonte sonora para o inicio da melancólica "Tudo o que você quiser". Um forró acústico, de acordes dançantes, serviu de despedida a Thomas (ou Tomás, como lhe chamam os amigos do Rio de Janeiro), por caminhos guiados por aplausos, em "Menina Bordada".
"Nas entrevistas a piada vira manchete e um dia eu li ‘Marcelo Camelo vai tocar fogo no violão’ e para os que vieram aqui para ver isso…isso não vai acontecer", contou o protagonista da noite, entre risos e afinações – "Só um bocadinho que afinado fica bem mais bonito". "A Outra" juntou forças num murmúrio para esquecer a dor, "Vocês não param tá? Nem por nada desse mundo".

Ao longo da sua carreira, Marcelo deu o seu amor e composições a artistas como Ney Matogrosso e Maria Rita – "Santa Chuva" e "Cara Valente", esta última arrancou as vozes dos homens e o swing dos ombros das senhoras. Abraçado ao violão, Marcelo Camelo despediu-se mas uma ovação de pé, puxou-o de volta ao palco. A um amigo especial, Fred Ferreira dos portugueses Orelha Negra, a gratidão veio em forma de "Saudade", dedilhada por breves instantes mas as palavras teimavam em não vir à cabeça. "Morena" veio em seu resgate e "Tá Bom" permitiu mais uma visita de Thomas à sala principal do Tivoli.

O tema de abertura volta, na reta final do concerto que ninguém queria ver por terminado. Gritam-se títulos de canções de Marcelo, sugestões que soam bem mas só havia lugar para "Vermelho", do mais recente disco a solo "Toque Dela" de 2011, e "Além do que se vê", que marcou o ponto alto da noite.  Marcelo "Caramelo" – pela sua voz doce e de veludo, despediu-se com beijinhos e mão no peito, enquanto Rohrer e a sua rabeca desvaneciam, no escuro.

As portas abriram, ainda as palmas não tinham acabado e havia um teatro insaciável por mais tonalidades do Brasil. A felicidade estava garantida mas vai deixar saudade.

Alinhamento:
1. Luzes da cidade
2. Dois em um
3. Casa pré-fabricada
4. Pra te acalmar
5. Samba a dois
6. Doce Solidão
7. Pois é
8. Janta
9. Dois barcos
10. Fez-se mar
11. Porta de cinema
12. Tudo o que você quiser
13. Menina Bordada
14. A outra
15. Santa Chuva
16. Liberdade
17. Cara Valente
18. Morena
19. Tá bom
20. Luzes da Cidade
21. Vermelho
22. Além do que se vê

Fotos: João Oliveira
Texto: Sara Fidalgo


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