Sean Riley & The Slowriders em entrevista: "Há coisas que são intemporais (…) Eu acho que nós nunca fomos algo com data"


Sean Riley & The Slowriders em entrevista: "Há coisas que são intemporais (…) Eu acho que nós nunca fomos algo com data"

Eu a dado momento tive vontade de voltar a fazer música com eles, tive saudades (…) – Sean Riley & The Slowriders voltaram. Pouco depois do lançamento do 4º álbum do grupo, o vocalista esteve à conversa com a Noite e Música sobre aquela que considera ser a nova era da banda.

Noite e Música: Começo por pedir-te para voltar uns aninhos atrás para te perguntar como é que tudo começou. Vocês conheceram-se em Coimbra, na Radio Universitária, em que momento é que decidiram juntar-se e criar o vosso projeto?
Sean Riley: Ora bem foram vários momentos na verdade: em primeiro lugar conheci o Bruno, eu fazia rádio na RUC (Rádio Universitária de Coimbra) e o Bruno também, fui fazer rádio para um programa dele e a dada altura apresentei-lhe algumas músicas que andava a escrever e ele gostou e disse-me ‘vamos lá trabalhar nisto juntos’. Comecei a ir para casa dele porque ele tinha lá um estúdio em casa e começamos a gravar algumas canções, portanto esse foi o primeiro momento; Depois num segundo momento tornei-me amigo do Filipe Costa, que já conhecia, e ele acabou por se juntar a nós. Aí começamos a dar os primeiros concertos, o primeiro álbum ainda só fizemos como um trio; Por último houve o momento da entrada do Filipe Rocha que era meu amigo de infância e com quem eu já tinha tido bandas no liceu mas que só entrou para a banda no segundo álbum. Até chegar ao que a banda é hoje foram três momentos.

NM: De onde é que surgiu o vosso nome: Sean Riley & The slowriders? Sean Riley sabemos que é o alter ego escolhido pelo Afonso Rodrigues dos tempos em que escrevia canções sozinho, mas esta junção surge como?
SR: O nome Sean Riley começou numa altura em que eu comecei a escrever, Sean era um nome que eu sempre tinha gostado e foi o nome que decidi adotar porque para mim não fazia muito sentido escrever canções em inglês e assinar como Afonso. No primeiro concerto que nós demos ainda foi como Sean Riley, então comei a aperceber-me que sendo um nome próprio as pessoas não iam associar ao nome da banda e iam ligar diretamente a mim e eu não queria que fosse assim e que existisse o músico e a banda convidada… Slowriders era um nome que eu também tinha na gaveta e fazia sentido naquele momento pelo tipo de música, pela camaradagem que havia entre nós, era um nome que assentava perfeitamente.

NM: Em 2007 começa então a vossa aventura com a edição do 1º álbum, Farewell, que se revelou uma das melhores estreias discográficas da música produzida em Portugal e apenas dois anos depois lançam outro álbum Only Time Will Tell que se revelou um dos melhores discos de 2009. Estavam à espera de uma projeção tão grande da vossa música logo no início?
SR: Não estávamos.. nós não estávamos à espera de nada! Nós queríamos fazer umas canções e falando por mim a única coisa que eu ambicionava fazer era conseguir gravar um álbum e quando gravamos o Farewell fiquei muito satisfeito e portanto tudo aquilo que nós recebemos, todos os sítios onde tocamos foram bónus e foram coisas que nós de facto não esperávamos, nunca tínhamos pensado nisso.

NM: Não criaram expectativas para evitar também possíveis desilusões não é?
SR: É verdade! (risos) Assim tudo soube a bónus e tudo soube bem!

NM: Depois de 3 discos editados em 5 anos e inúmeros concertos dentro e fora de Portugal, vocês seguem caminhos diferentes. Houve alguma razão para vocês decidirem afastar-se como banda?
SR: Não.. Quer dizer sim! (risos) Houve razões para nós tomarmos as decisões que tomámos, não houve nenhuma razão para nos afastarmos como banda. Isto foram tudo decisões pessoais e tiveram a ver com o rumo que a vida de cada um de nós levou. Nunca houve aqui uma ideia de por a banda em stand by ou de não querer continuar com a banda, a questão foi que outras coisas surgiram. Eu, quando acabamos os concertos do ultimo álbum, decidi tirar quase um ano e passar o meu tempo entre Lisboa e Berlim, o Bruno decidiu ir para Timor, o Filipe abraçou um projeto ligado à edição literária, depois eu voltei mais a sério à música mas na prática fiz uma outra banda… Portanto foram tudo frutos do acaso e não propriamente decisões de acabar com a nossa banda, foi acontecendo.

NM: E agora juntam-se de novo! Houve algum momento decisivo e concreto que vos fizesse reunir? Qual de vocês é que ligou aos outros a dizer "Está na hora de juntar"?
SR: Sim, foi mais ou menos isso. Eu a dado momento tive essa vontade por algumas razões, tive vontade de voltar a fazer música com eles, tive saudades de fazermos as coisas que fazíamos e depois surgiu um convite para nós fazermos um concerto numa altura em que nós nem sequer estávamos a tocar, o nosso manager ligou-me e perguntou-me se era para avançar com a proposta e se valia a pena, tínhamos que fazer um concerto do nada e ensaiar tudo, e eu disse ‘marca’ porque achei que ia ser uma boa altura para passarmos um fim de semana de ensaio juntos, um fim de semana na estrada juntos, era um bom avanço para voltarmos a tocar juntos e a fazer a nossa música.

NM: 2015 Marcou o vosso regresso aos palcos depois de 3 anos sabáticos como grupo. Nos concertos que fizeram o ano passado sentiram recetividade e ansiedade por parte do público para vos ouvir?
SR: Acho que é um bocadinho presunçoso dizer que sim (risos) mas a verdade é que eu acho que sim, recebemos imenso feedback positivo e tivemos pessoas que se deslocaram propositadamente para ver os concertos! Portanto vou dizer-te que sim, claro que não é um fenómeno de histeria mas com certeza que alguma pessoas ficaram felizes por nos ouvir.

NM: E se 2015 marcou o regresso aos palcos, 2016 marcou o regresso aos originais. Depois de Farewell, Only Time Will Tell, It’s Been a Long Night, surge agora o 4º álbum Sean Riley & The Slowriders, houve alguma razão em especial por optarem por dar o nome da banda ao álbum?
SR: Há várias mas de uma forma muito simples a questão é a seguinte: normalmente as bandas dão um nome homónimo ao disco quando é o primeiro disco e nós sentimos que de alguma forma este era um primeiro disco, obviamente que não esquecemos que temos 3 álbuns para trás e toda a história da banda mas há efetivamente aqui um fechar de um ciclo e um inicio de um novo e portanto fez sentido que este fosse o disco homónimo como se fosse um recomeço e uma reafirmação de unidade e identidade de banda.

NM: "Este é o disco mais direto do ponto de vista da criação, uma homenagem ao espírito impulsionador das primeiras gravações, seguindo por novos caminhos sem nunca perder de vista a essência da banda". Aproveitando palavras tuas, em que medida é que este disco é diferente dos outros?
SR: Eu acho que todos os nossos discos são diferentes, em todos os nossos discos nós tentamos sempre apontar em direções um bocadinho diferentes daquilo que tínhamos feito no álbum anterior. Este acho que é um bocadinho ainda mais diferente do que os outros e talvez porque tivemos mais tempo para o fazer, nós fazíamos sempre os discos muito rapidamente, fizemos 3 discos em 4 anos! Era concertos, compor, estúdio, gravar, sempre numa roda viva, e neste tivemos um pouco mais de tempo, as coisas foram feitas sem qualquer pressa e pressão. Alteramos alguns processos a nível da composição e da produção, mudamos de produtor e de estúdio, tudo diferente e acho que isso se reflete na música que gravamos.

NM: Curiosamente, apesar de terem tido mais tempo para gravar, este foi um disco composto sob a máxima de "first thought, best thought", muito intuitivo e até instintivo, é um paralelismo interessante.
SR: Sim (risos) mas repara, uma coisa é teres tempo para pensares sobre aquilo que queres fazer, outra coisa é depois quando passas à ação demorares muito tempo. Nós, efetivamente, demoramos muito pouco tempo na composição das canções, em 3 ou 4 sessões de 3 dias nós escrevemos o disco todo, foi rápido. Depois tivemos foi tempo para ouvir aquilo que tínhamos escrito, para gravar com calma em estúdio, para produzir e fazer alterações, aí levamos o nosso tempo!

NM: "Dili" foi a música escolhida para ser o single de regresso, quando a compuseram decidiram logo que era esta a cara que vocês queriam dar ao novo álbum ou só depois de terem tudo pronto e gravado é que escolheram?
SR: Sim, foi mais isso, já tínhamos o álbum gravado quando escolhemos o primeiro single. Eu não escolho singles, não me meto nisso (risos), nós normalmente pedimos opinião às pessoas que estão mais próximas da banda, alguns amigos que são músicos, pessoal da nossa equipa e a canção que ganha é que tiver maioria de votos para ser a escolhida. É sempre difícil escolher uma primeira canção porque à partida as pessoas esperam que seja uma canção que ilustre o álbum, e este é um álbum um bocadinho difícil de ilustrar, tem cores bem diferente umas das outras daí ser difícil conseguir encontrar uma canção que conseguisse espelhar o que é o álbum. A "Dili" pareceu-nos uma boa canção de transição porque junta aquilo que nós já fizemos mas também tem alguma novidade do que é o novo álbum.

NM: Vocês percorreram praticamente todos os palcos de Norte a Sul de Portugal. Houve algum concerto que foi mais especial para vocês? Que vos deixou as melhores recordações?
SR: Todos temos momentos diferentes inclusive já falamos disso entre nós, todos temos momentos que nos marcaram imenso. Pessoalmente tenho um carinho especial pelo primeiro concerto que nós demos no Teatro Académico Gil Vicente, foi um concerto incrível; A primeira vez que tocamos no Coliseu de Lisboa; Como eu gosto muito de festivais, qualquer uma das vezes que tocamos em Paredes de Coura, no Super Bock Super Rock, no Alive, foram concertos fantásticos.

NM: Há alguma música em especial que sentem que é mais aclamada pelo público?
SR: Há sempre uma música que tem muita recetividade, uma música do segundo álbum que na altura rodou imenso que é a "This Woman", como muita gente a conhece acaba sempre por ter uma receção calorosa.

NM: Vocês têm referências e artistas de inspiração no processo de criação da vossa música?
SR: Claro! Não só músicos mas também escritores, cineastas e pintores. Há imensa gente que nos inspira, nós gostamos todos de muitas coisas, coisas diferentes. Daí ser um bocadinho difícil dar-te uma lista mas é como te digo, somos inspirados por muita coisa.

NM: Cantar em Português não faz parte dos vossos planos?
SR: Eu gostava! Não em Sean Riley & The Slowriders porque não fará sentido alterar aquilo que nós fazemos mas eu já pensei muito sobre isso e gostava de um dia fazer um disco em português. Acho que ainda não chegou o momento certo, ainda não senti aquele chamamento, já tentei escrever algumas coisas mas nunca escrevi muito focado para canção, haverá de acontecer um dia, eu gostava!

NM: "Esta é uma banda que nunca pertenceu a um tempo. Nem ao seu nem a nenhum outro". Esta frase está na vossa descrição, o que é que ela significa exatamente?
SR: O que eu sinto em relação a isso é que na prática há coisas que são intemporais e há coisas que são janeiro de 2016 mas já não são janeiro de 2017. Eu acho que nós nunca fomos algo com data, nunca fomos uma banda que fizesse música que tivesse necessariamente associada àquilo que se está a passar naquele tempo e naquele momento. Acho que é nesse sentido que vem a frase, tentar fazer algo que funcione sempre, intemporal. Nesse sentido fazer algo intemporal é não pertencer a um tempo.

NM: Para terminar, vamos ter Sean Riley & The Slowriders num futuro próximo?
SR: Sim, claro! Nós vamos fazer bastantes concertos este ano, já temos concertos marcados até ao ano que vem por isso vamos fazer bastantes coisas! Neste momento vamos aguardar mais umas semanas e lá para o fim do mês vamos divulgar em bloco as datas.

Entrevista: Daniela Fonseca


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