Rita Redshoes em entrevista: "Eu gosto de escrever sobre o mistério da vida e do que realmente estaremos aqui a fazer"


Rita Redshoes em entrevista: "Eu gosto de escrever sobre o mistério da vida e do que realmente estaremos aqui a fazer"

Poucas semanas depois do lançamento do seu 4º álbum Her, estivemos à conversa com Rita RedShoes. A cantora falou-nos um pouco do seu percurso na música e do seu novo disco.

Noite e Música (NM): Em primeiro lugar, provavelmente a pergunta mais cliché de todas, de onde vem o nome artístico Rita Redshoes?
Rita Redshoes (RR): Quando eu comecei a gravar percebi que tinha de encontrar um nome artístico. Eu queria um nome que de alguma forma mostrasse um universo por detrás da palavra, ou seja, queria que quando as pessoas ouvissem o nome imaginassem uma energética associada. O 'Redshoes' surgiu-me uma vez e eu acho que tem muito que ver com o meu gosto desde pequenina por contos e livros infantis porque em muitos deles haviam sapatos vermelhos com poderes, depois mais tarde os míticos sapatos vermelhos no filme "Feiticeiro de Oz". No fundo há uma série de significados ligados aos sapatos vermelhos que eu acho que têm que ver com a minha personalidade de artista e como sou uma pessoa tímida, embora já tenha melhorado (risos), os sapatos vermelhos eram uma espécie de super poder para eu subir para cima do palco.

NM: Licenciada em Psicologia Clínica, seguir uma carreira musical não estava nos teus planos?
RR: Na verdade a carreira de psicóloga é que nunca esteve nos meus planos! Eu fui tirar o curso por curiosidade, nunca achei que iria exercer. Eu comecei a tocar aos 14 anos por isso a música apareceu bem primeiro do que o curso. A Psicologia surgiu numa altura em que eu não saberia se ia conseguir seguir esta carreira na música mas tinha já uma grande vontade e teimosia de o fazer. Portanto o curso aparece um bocadinho como um Ovni! (risos)

NM: Em que momento decidiste que era no mundo da música que querias viver?
RR: Olha essa é uma decisão que eu tenho que tomar todos os dias! (risos) Porque viver da música e das artes não é propriamente simples, pelo menos para a maioria dos artistas. Eu senti que era isto que eu queria fazer, não sabia se iria ser profissionalmente ou não, mas era algo que me dava muito gozo. A primeira vez que subi a um palco com a minha primeira banda tive uma sensação incrível e percebi que aquilo que dava muito prazer e que sem dúvida eu queria repetir.

NM: Antes de te lançares a solo, passaste alguns anos a integrar várias bandas, inclusive acompanhaste David Fonseca a partir de 2003. Houve algum momento que te fizesse decidir que estava na altura de saltar para o plano da frente?
RR: Sim, há medida que eu fui estudando música e também a tocar piano, comecei a sentir necessidade de escrever as minhas próprias canções. Embora eu goste muito de trabalhar com outras pessoas, fui percebendo que tinha alguma coisa a dizer e que eu gostava de o dizer daquela maneira específica. Era uma necessidade de compor aliada ao facto de já ter ferramentas para o fazer. Não houve um momento chave que me fez tomar esta decisão mas foi algo que fui sentindo e que fez sentido fazer.

NM: Quando em 2008 lanças o teu primeiro álbum, Golden Era, cantas 12 músicas em Inglês. O inglês sempre surgiu naturalmente para ti?
RR: Sim, na verdade surgiu! Quando eu integrei a minha primeira banda, os Atomic Bees, a banda já estava formada e portanto já havia canções e letras, e como eles cantavam em inglês eu fui-me habituando. Para mim foi muito bom porque eu não era muito boa aluna a inglês, então melhorei imenso! O inglês era uma constante até porque eu tinha que ler letras de outras bandas, então comecei a querer escrever letras também em inglês para a banda. No fundo habituei-me ao inglês e fui ganhando mais ferramentas e vocabulário. O inglês não foi uma escolha, foi acontecendo naturalmente.

NM: Quais são as tuas referências a nível musical? Tens artistas que te inspiram?
RR: Sim, há muito músicos e músicas que me inspiram bastante. Talvez a maior inspiração para mim tenha sido a PJ Harvey e depois também ouço muito o jazz, nomeadamente, Nina Simone. Além da música também há influências das outras artes, como o cinema, a pintura, a fotografia, são todas áreas que eu adoro e que inspiram muito.

NM: Agora, em 2016, o teu 4º álbum Her. Para quem ainda não conhece o teu novo disco, como é que o descreverias?
RR: É um disco que tem algumas surpresas, como por exemplo ter cantado pela primeira vez em português e o facto de querer fazer um disco com cordas do início ao fim. Há também o fator de ter ido gravar para fora pela primeira vez com um produtor australiano e músicos estrangeiros. Isto tudo traz novidade em relação aos processos dos discos anteriores mas por outro lado também acho que acaba por ser um álbum que faz uma ponte entre os discos todos. É provavelmente o meu disco mais maduro até porque me sinto mais realizada. Tinha em mente escrever canções mais clássicas mas também outras mais arrojadas onde a melodia prevalecesse em relação aos outros elementos e acho que consegui aquilo a que me propus e cumpri o que desejava para este projeto.

NM: Como disseste, esta foi a primeira vez que realmente compuseste e gravaste em português. Surgiu naturalmente ou partiu de uma vontade de compor em português para este álbum?
RR: Na verdade era uma vontade que eu já tinha há alguns anos até. Eu fiz um espetáculo em 2012 chamado "The Other Woman" em que cantava canções escritas por outras mulheres, foi a primeira experiência de palco que tive a cantar português, gostei muito por não haver um filtro entre mim e o público, a comunicação na nossa língua é obviamente mais direta, as imagens são criadas muito mais facilmente por quem ouve. Depois tive outras experiências em português e o desejo de compor na nossa língua continuou a crescer, então, agora neste disco, pude concretizar essa vontade, com a maturação de quem há muitos anos queria dar este passo.

NM: Como foi feita a escolha do "Life Is Huge" para single do álbum? Porque este tema e não outro?
RR: Foi uma escolha em conjunto. A partir do momento em que eu decido quais são as canções que vão fazer parte do álbum, qualquer single para mim serve. Essa escolha é mais de quem trabalha comigo, contando com a minha opinião claro, mas de facto eu não "finco o pé" a singles. Deixo essa decisão para aqueles que, melhor do que eu, terão a capacidade de perceber qual é a canção que, em termos comerciais, resulta melhor. A escolha do "Life Is Huge" foi unânime e deixou-me muito satisfeita porque acho que é uma canção que faz uma espécie de resumo daquilo que são as outras canções e também aquele que é o tema central da minha escrita: Eu gosto de escrever sobre o mistério da vida e do que realmente estaremos aqui a fazer e o que importa.

NM: Recentemente juntaste-te aos GNR no tema "Dançar Sós". Como é que foi cantar com uma banda tão emblemática?
RR: Fiquei muito contente com o convite! Eu já tinha cantado este tema com eles em alguns concertos e depois acabamos por gravar até porque eles queriam um último single para lançar o álbum. Os GNR são uma das bandas mais carismáticas de Portugal, sobretudo na lírica, são um grupo eu admiro desde pequena e como podes imaginar nunca pensei que iria ter o privilégio de poder gravar e cantar com eles! Foi uma emoção forte e deixou-me muito contente.

NM: Como tem sido a reação das pessoas ao teu novo disco?
RR: Até agora tem sido muito bem recebido! Tenho visto pelas mensagens que as pessoas me mandam e também pela reação do público nos concertos quando ouvem as novas músicas! Tem sido muito bom receber o carinho das pessoas.

NM: Para terminar, podemos saber de alguns concertos agendados para breve?
RR: Claro! Agora tenho concertos marcados até setembro, posso destacar aqueles que se calhar serão mais especiais como o da Casa da Música no Porto dia 22 de abril e o do Tivoli em Lisboa dia 23 de Abril. Esta tournée vai ter concertos um bocadinho diferentes dos anteriores até porque vou estar sempre acompanhada por um quarteto de cordas. Vai ser um ano dedicado a levar o Her às pessoas.

Entrevista: Daniela Fonseca


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