Resistência em entrevista: "Estamos bem melhor agora do que há 20 anos"


Os Resistência duraram apenas dois anos e dois meses, mas esse tempo foi mais que suficiente para fazer desta banda um nome incontornável na história da música portuguesa. A união de músicos provenientes de bandas tão diferentes no panorama musical português, resultou na transformação, adaptação e nova orquestração de temas conhecidos do cancioneiro nacional, trazidos pelos membros da banda e não só. Numa vertente mais acústica e virada para uma valorização da voz como instrumento, a junção dessas mesmas vozes mostraram a força da união. Os temas interpretados pelos Resistência ganharam uma nova vida e uma alma genuína nunca antes vista.

Vinte anos passados sobre o concerto de estreia da Resistência no S. Luiz, é altura de celebrar o aparecimento pioneiro do super-grupo, um caso exemplar e um momento irrepetível da História da música portuguesa. Os Resistência voltam ao Porto para dois concertos no Coliseu, a 26 e 27 de abril.

Antes disso, o Noite e Musica esteve à conversa com Fernando Júdice e Fernando Cunha, dois dos elementos dos Resistência, para tentar saber o que podemos esperar destes Resistência 20 anos depois.

Como explicam o fenómeno dos Resistência há 20 anos atrás?
Pensamos que há 20 anos houveram um conjunto de fatores que nos levaram a isso. Hoje em dia é comum haverem colaborações entre artistas de projetos musicais diferentes, temos isso como dado adquirido, há 20 anos atrás isso simplesmente não existia.  As pessoas conheciam-se, mas viviam em zonas estanques da musica, não havia interação. Os resistência eram um projeto de colaboração, e isso foi uma novidade, a questão de se juntarem musicos de areas tão diferentes, foi muito importante. Outro fator, foi a escolha das canções e da mensagem, que não foram escolhidas ao acaso, letras que tinham a ver com algumas inquitações nossas,algumas com palavras de ordem que se enquadravam por exemplo com o que se vivia no movimento estudantil em 93, e com isto tudo conseguimos criar um som que não era habitual em Portugal, depois havia também a questão da imagem, tinhamos uma imagem muitoforte, somos 10 pessoas a cantar em palco de preto.  Outra coisa também importante, era o prazer genuíno que tinhamos de estar ali a tocar aquelas canções, não estavamos ali a cumprir calendário.

Penso que tudo isto nos levou a ter o sucesso que tivemos, ainda que efémero porque foram só uns 3/4  anos, mas muito intensos, porque todos nós tínhamos projetos paralelos e não era fácil juntar  aquela gente toda, e ainda hoje não o é, aliás a questão da agenda, foi a questão mais dificil de lidar.

O que vos motivou a voltarem-se a juntar 20 anos depois?
Sentimos que os Resistência foi um projeto que nunca acabou, a vontade dos fãs foi importante porque sempre que nos encontravam, e agora mais recentemente através das redes sociais, pediam-nos para voltarmos.  Com o lançamento da colectânea "As Vozes de uma Geração" que inclui um livro com um texto biográfico do jornalista António Pires, dezenas de fotos de Augusto Brázio, muitas delas raras ou inéditas e as letras de todas as canções, para comemorar os 20 anos da Resistência, fez-nos despertar o bichinho de nos voltarmos a juntar.

Foi fácil conciliar as agendas de todos?
Os 20 anos coincidiram com um período em que não tinhamos as agendas tão cheias, e ou nos juntavamos agora aos 20 anos ou não fazia sentido, foi um timming perfeito. A vontade de todos também foi determinante. Ficou sempre aquela pontinha da saudade, a nossa amizade manteve-se sempre.

O que mudou nestes 20 anos?
20 anos de experiência tornaram-nos melhores tecnicamente, a qualidade hoje em dia é superior, logo no primeiro ensaio antes destes concertos de celebração, as coisas começaram a soar bem, quase imediatamente. Estamos bem melhor agora do que há 20 anos.

Estavam à espera da reação que tiveram neste regresso?
Tínhamos alguma expectativa, se não teria sido uma ideia um bocadinho suicida, mas na realidade não sabíamos ao certo qual ia ser a reação. Mas no fim, exedeu todas as nossas expectativas. Tivemos uma grande afluência, de publico variado, famílias inteiras. As pessoas ficaram admiradas com a qualidade sonora, que é obivamente bem melhor do que há 20 anos atrás. A questão do saudosimo é uma questão curiosa, as pessoas tem saudades do passado, lembram-se de coisas marcantes, e de facto foi engraçado que se notou que esta memória (A Resitência) está viva.  Uma coisa engraçada por exemplo, é que canções como Timor que quando a fizemos era uma canção de luta, há 20 anos Timor estava ocupado pela Indonésia, hoje em dia passados estes 20 anos, é uma canção de celebração, e é uma canção que tem um impacto no publico incrível.

O que esperam dos concertos a acontecer no Coliseu do Porto?
Temos a expectativa de conseguir esgotar as duas datas que temos para o Porto.  O concerto que vamos apresentar, é um tudo semelhante ao que apresentamos  em Lisboa e Guimarães ainda em 2012. O que acontece aqui no Porto, é que o publico do norte é especial, é um facto que temos vindo a reparar ao longo do anos. Parece que as pessoas se entregam mais, é sempre muito agradável para nós darmos um espectaculo no Porto.

Porque é que acham que o publico do Norte é um público especial?
A cidade do Porto, é a provavelmente a cidade que mais bandas produz a nível nacional, e por isso achamos que a relação das pessoas no Porto, com a musica é mais envolvente.
O coliseu do Porto é uma sala mítica, e que devido à sua estrutura, cria proximidade com as pessoas, e essa proximidade faz com que haja uma troca de energia entre publico e banda muito grande, e achamos que estes concertos vão criar essa mesma empatia/emoção.

Entrevista: Ana Isabel Soares

Recorda aqui o concerto da banda no Campo Pequeno, no passado mês de dezembro.


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