Linda Martini em entrevista: "A música é quase um sentimento de necessidade nossa"


Linda Martini em entrevista: "A música é quase um sentimento de necessidade nossa"

Os Linda Martini estão a comemorar 15 anos de existência e têm novo álbum. A Noite e Música esteve à conversa com o vocalista e guitarrista André Henriques para saber mais deste novo disco e sobre o percurso e as conquistas destes quatro amigos que se juntaram em 2003. O artista falou das maiores diferenças destes 15 anos e da imprevisibilidade do sucesso e do futuro.

Depois de 15 anos vemos a Linda Martini na capa do vosso álbum. Porque é que decidiram optar em por o rosto deste vosso nome agora no quinto álbum? Estavam casados que vos perguntassem a razão de se chamarem Linda Martini?

Cansados não, até porque é uma curiosidade legítima. Acho que aquilo que nos fez escolher o nome é o que faz as pessoas perguntarem, é um nome exótico. É o nosso quinto álbum e não tínhamos pensado em fazer um disco homónimo porque, às vezes, até pode ser considerado um bocadinho falta de imaginação! (risos) A ideia surgiu de forma muito natural. O Pedro conheceu a Linda Martini quando estávamos a formar a banda, na altura em que ela esteve em Portugal em Erasmus, e foi mantendo o contato com ela. Há uns três anos reencontraram-se num casamento e ele tirou-lhe essa foto que está na capa. Na altura não quisemos incluir a foto no álbum anterior porque já havia uma ideia formada para o Sirumba. Agora, neste álbum, voltou a surgir em conversa a foto e acordamos logo que, se ela nos autorizasse, a foto seria a capa e, então, só faria sentido ser um disco homónimo. Foi engraçado porque alguns de nós já nem se lembravam bem de como ela era, até porque só a conhecemos num concerto alguns anos depois de formarmos a banda. Por curiosidade, a foto é a fotografia que o Pedro tirou mas reproduzida numa pintura a óleo.

Exatamente sobre esse assunto da escolha de ser um disco homónimo, faria sentido chamar ao álbum Linda Martini sem a foto?

Não, até porque não é nenhum tipo de afirmação nossa. Ou seja, não é por ser o álbum mais Linda Martini que já fizemos, não é para mostrar que agora é que é, de todo. Nós achamos graça à ideia da foto exatamente porque, além do Pedro, nenhum de nós está familiarizado com a imagem dela. E gostamos todos da foto em si!

Como é que apresentarias este álbum? É o culminar de algum processo, é um turn over ou é simplesmente a continuação do trabalho que têm feito? Ou não é nada disto?

É um bocado de tudo o que disseste! Acaba por ser sempre uma continuação porque somos os mesmos quatro elementos que fizeram os outros discos. Os álbuns acabam por ser um retrato daquilo que a banda é em cada momento. Nós tentamos sempre não soar ao disco anterior, por isso há sempre aspetos que vamos mudando. Este disco, em relação ao Sirumba, é um disco mais abrasivo mas continua a ter momentos muitos diferentes. Essa é sempre a nossa ideia, não queremos ser aqueles discos que começam num ponto e acabam exatamente no mesmo! Gostamos de variar e de ter momentos diferentes, mesmo dentro de uma música! É isto que nos dá gosto e vamos sempre tentando fazer.

"Gravidade" foi o primeiro tema a sair cá cara fora. É, de certa maneira, o mais perto de ser um espelho do álbum ou foi escolhido por outra razão?

Quando fazemos o álbum há sempre um conjunto de músicas e o exercício é escolher qual queremos mostrar primeiro. As nossas razões, ao longo do tempo, vão mudado mas é sempre uma questão democrática. Às vezes escolhemos aquela que consideramos ser a que foi mais bem conseguida em estúdio, outras vezes até escolhemos por obter em nós reações distintas. Neste caso não é um espelho porque, como te disse, o disco tem momentos muito diferentes. Esta ideia de eleger um single ou uma música de avanço, para nós, nunca conseguiríamos ter uma música que sintetizasse tudo o que o disco é. Optamos pela “Gravidade” por se a música mais abrasiva e por ser a música que, para o bem ou para o mal, não ficava indiferente aos nossos amigos e equipa técnica. Decidimos não nos preocupar com o formato redondinho que é preciso para a rádio e escolhemos a que achamos ter mais impacto para nos mostrar dois anos depois do último álbum.

Passaram-se 15 anos. É inevitável perguntar, quais são as maiores diferenças entre a sonoridade que nos apresentaram no EP em 2003 e este Linda Martini de 2018?

A grande diferença são as nossas vidas, aquilo que aconteceu entretanto. Aquilo que mudou a nível pessoal mas também aquilo que são as competências de cada um na banda, as funções que desempenhamos. Em 2003 todos tínhamos menos recursos dos que temos hoje, a nível técnico. Hoje, se calhar, consigo escrever melhor, cantar melhor e tocar melhor, e eles também. Foi sempre um crescimento e uma aprendizagem que foi transportada de disco para disco. A diferença é mesmo essa, aquilo que este crescimento nos tem trazido enquanto grupo. Por isso mesmo, a música que fazemos hoje tem que ser naturalmente diferente da que fazíamos na altura.

Em 15 anos há algum tema que notam ser o preferido do vosso público? Aquele que as pessoas sabem de cor e que esperam ansiosamente?

Felizmente há alguns, mas nós não ficamos presos a uma canção. No início a nossa música que ficou mais conhecida foi o "Amor Combate" e é provavelmente a mais icónica, principalmente para aqueles que nos ouvem há mais tempo. Mas, por exemplo, houve uma temporada que não a tocamos ao vivo e as pessoas gostaram dos concertos da mesma maneira. Acho que temos conseguido sempre ter várias canções, singles ou não, que o público gosta e agarra. Há também a "100 Metros Sereia" com a qual temos sempre acabado os concertos que, mesmo não sendo single e quase toda instrumental, é daquelas que as pessoas mais cantam ao vivo. É engraçado porque, de disco para disco, as pessoas agarram momentos diferentes. Quando apresentamos o Turbo Lento o single de apresentação era o "Ratos" e, mesmo sendo algo recente, as pessoas vibraram mais do que com outras que eram as ditas "favoritas".

É mais fácil fazer parte do panorama da música portuguesa agora ou era mais fácil há 15 anos quando havia menos concorrência?

Como todas as áreas há coisas mais fáceis e coisas mais complicadas. Em Portugal, a indústria e o meio são pequenos e há pontos positivos e negativos dessa realidade. Por exemplo, a questão do circuito dos espaços para tocar é uma imagem do país. O país é pequeno e, portanto, não tens assim tantas salas de espetáculos com maior dimensão para os artistas mostrarem o seu trabalho. Agora, se é mais fácil agora ou há 15 anos? Claro que hoje temos uma estrutura que não tínhamos quando começamos. Temos uma editora que nos oferece muito mais condições para nós fazermos o nosso trabalho e nos dedicarmos em exclusivo à música. E, estou certo, de que houve uma evolução nossa. Sempre existiu boa música em Portugal mas eu acho que atualmente estamos numa boa fase de criação e de novos projetos que têm aparecido. Acho que, hoje em dia, há menos preocupação em ter atenção àquilo que vem de fora e se nos estamos a reinventar ou não. Há mais liberdade.

Para terminar, 15 anos já estão. O que é que falta fazer? Qual é o caminho a seguir? Se é que há um caminho delineado.

Sabes que nunca houve, a verdade é essa! (risos) É sempre difícil para nós responder quando nos perguntam qual é a receita para o sucesso porque nós também fomos surpreendidos com isto tudo. A começar porque em 2003, quando nós aparecemos, não era muito comum existirem bandas a cantar em português e a fazer o tipo de rock que nós fazíamos. Não tínhamos grandes referências e tivemos que inventar o nosso caminho. Depois, nunca fomos uma banda de planear muitas coisas ou delinear um percurso. Para já nunca pensamos em durar 15 anos! Nunca pensámos em estar tanto tempo juntos porque a nossa premissa sempre foi sermos um grupo de amigos que gosta de fazer música juntos. A música é quase um sentimento de necessidade nossa, o nosso refúgio criativo. Se existe uma receita e um truque, então é essa necessidade e vontade. E claro tivemos a sorte das pessoas gostarem de nós e daquilo que fazemos. Nunca planeamos tocar em Coliseus, estar em número 1 do top, foi tudo acontecendo. A única coisa que eu espero dos próximos 15 anos é que continuemos a fazer música se for essa a nossa vontade. Porque se nós os quatro deixarmos de ter vontade de o fazer, acaba por ser uma mentira e isso não queremos de maneira nenhuma. Felizmente nunca deixou de existir essa vontade.

Entrevista: Daniela Fonseca
Foto Linda Martini: Ângelo Lourenço