João Carvalho em entrevista: "(Paredes de Coura) É um festival diferente. É um local de culto para quem gosta de música"


João Carvalho é a "mente" por trás do festival mais antigo de Portugal. O diretor da Ritmos e um dos fundadores do festival Paredes de Coura, é um dos homens mais fortes na industria festivaleira portuguesa. Estivemos a falar do sucesso do festival minhoto ao longo destas duas décadas e ainda houve tempo para umas palavrinhas sobre o warm up Paredes de Coura, a realizar-se no Porto dias 12 e 13 de Abril.

Noite e Música: O Paredes de Coura é, assumidamente, um festival que aposta em música alternativa e traz a Portugal bandas pouco conhecidas do público, como por exemplo as Warpaint, que começaram por tocar no PC e depois saltaram para o palco do Optimus Alive. Como surgiu a ideia de optar por este tipo de festival, que apostasse em bandas pouco conhecidas?
João Carvalho: O segredo de se fazer um festival fora de grandes centros é exatamente a coerência; o estilo musical é aquele do qual nós gostamos – tu para seres feliz a fazer alguma coisa tens de fazer aquilo que gostas. Disseste, e muito bem, as Warpaint, mas há imensas outras de bandas com as quais aconteceu o mesmo. Se olhares para qualquer festival há pelo menos cinco ou seis bandas que passaram por Paredes de Coura; é indiscutivelmente o festival com mais estreias nacionais e esse é um dos segredos do PC. Estamos sempre atentos ao que acontece e "adivinhamos" o sucesso e somos felizes a fazer esse festival; por muitas coisas que façamos ao longo do ano, o Paredes de Coura é aquele que fazemos com mais carinho, com amor e que sem dúvida nenhuma é a nossa melhor semana do ano.
O segredo do nosso sucesso é mesmo esse. Trazemos as bandas que nós gostamos para tocar no "nosso quintal", na nossa praia fluvial e é com prazer que conseguimos manter uma linha coerente todos os anos e estou muito expectante pela edição deste ano porque acho, sinceramente, que vai ser a mais coerente e uma das melhores de sempre.

NM: Já trouxeram a Paredes de Coura bandas que nunca tinham posto os pés em terras lusas e que depois despoletaram na orla musical e fizeram parte de vários festivais de verão, nos anos seguintes. O que sentem ao ver que foram provavelmente vocês os impulsionadores para que a banda cingrasse em Portugal?
JC: Sim, claro. Há inúmeras bandas que passam primeiro por Paredes de Coura e só depois vão a outros festivais, e isso dá-nos, para além de muito gosto, um enorme capital de respeito – as pessoas já sabem que Paredes de Coura é sinal de qualidade. Se antes as pessoas desconfiavam de determinadas bandas porque diziam que não conheciam, hoje já dão o benefício da dúvida – se está em PC, por alguma razão é. Este festival é dos únicos que, às seis da tarde, já tem milhares de pessoas em frente ao palco principal – e isso não é por acaso, há uma apetência nas pessoas em descobrir novas bandas. Em 20 anos criou-se o hábito de passarem bons projetos em Paredes de Coura, por exemplo os Flaming Lips, os Coldplay, os Arcade Fire, entre outras imensas bandas.

NM: Há uma saturação no mercado festivaleiro? Os festivais estão na moda?
JC: Sim, os festivais estão na moda mas eu acho que o deixaram de estar em Portugal e estão cada vez mais na Europa. Inglaterra esgota quase todos os seus festivais, a Europa de Leste abriu-se aos eventos, os patrocinadores querem entrar nesses países para apoiar a música e são hoje concorrentes fortíssimos na indústria musical no que diz respeito a festivais. É cada vez mais complicado fazer-se um festival com bons nomes porque as bandas estão cada vez mais caras e nós temos conseguido quase todos os anos um milagre porque temos sempre um bom festival pois calha numa altura em que não existe mais nenhum festival perto – não há nenhum festival em França, em Espanha – e nós conseguimos a proeza de trazer bandas que estão completamente fora da rota de planos deles e que vêm de propósito a Portugal fazer um concerto e que depois têm de ir ou para os EUA ou para um país longínquo na Europa.

NM: Obviamente que deve ter sido difícil começar um festival sem ter muitos apoios e patrocínios. Apesar de tudo, o Paredes de Coura manteve-se em pé durante todos estes anos. O que é que mudou ou não mudou em termos de apoios ao festival? O regionalismo ainda se sente muito ou essa linha entre Lisboa e Minho já está mais ténue?
JC: Não… Não está. Toda a gente sabe que este é um país centralizador e de Lisboa olham cá para cima como se usássemos todos bigode e andássemos todos com as vaquinhas (risos) e claro que temos tido umas lutas enormes com as agências de comunicação para explicar o que é o Paredes de Coura. As pessoas querem forçosamente impôr um cunho regional ao festival só porque tem lugar no minho – ou querem pôr o lencinho de Viana, ou querem dizer "tá-se bem", mas não… O Paredes de Coura acontece em Paredes de Coura mas podia acontecer em Nova Iorque, em Barcelona.
Quanto aos patrocínios, finalmente temos um patrocinador que fala a nossa língua – que é a Vodafone; chegar aqui foi muito difícil. Pela primeira vez em 20 anos nós conseguimos escolher um patrocínio – deram-nos duas opções de escolha, a EDP e a Vodafone, o que é um luxo porque sempre tivemos dificuldade em obter patrocinadores para o festival.

NM: Na opinião do João, o que é que agarra o público a um festival tão a norte de Portugal, num país tão virado para Lisboa?
JC: O que agarra é exatamente a qualidade musical, o rigor com que programamos o festival, a forma como cuidamos das pessoas – que está longe de ser perfeita e queremos melhorar muito nesse aspeto este ano – a paisagem, o estilo musical que depois também leva determinadas pessoas ao festival. É um festival diferente. É um local de culto para quem gosta de música.

NM: A crise sente-se, claro. As pessoas começam a pensar duas vezes em ir a festivais de verão ou cada vez apostam mais em algo que as vai ajudar a esquecer os problemas do dia a dia?
JC: Eu acho que os festivais como o Paredes de Coura vão sempre ter o seu público e provavelmente até crescer, porque não é um festival onde se gasta  80 ou 100 euros e se vai para casa de "barriga vazia"; o festivaleiro até pode ir com um bom concerto na cabeça mas não é mais do que isso. O Paredes de Coura oferece mais, oferece uma semana onde as pessoas estão em contacto com a natureza, a acampar num lugar idílico, com boas condições, é uma forma de fazer férias baratas e eu penso até que o Paredes de Coura pode sair beneficiado com esta crise tremenda que está a abalar o país.

NM: Em relação ao Warm Up que vamos ter em abril , como surgiu a ideia destes dois dias de concerto como convite ao festival de Paredes de Coura?
JC: Nós decidimos em conjunto com a Vodafone, que é o nosso patrocinador, começar a comunicar o Paredes de Coura mais cedo. A Vodafone precisava de um evento, nós gostávamos de comunicar o Paredes de Coura mais cedo e lembramo-nos deste Warm Up que eu acho que vai ser um conceito muito bem conseguido. Vai ser numa tenda numa praça muito conhecida do Porto, na praça D. João I, e acho que vai conseguir trazer um pouco da essência do Coura à cidade e penso que vai correr muito bem.

NM: O Warm Up Paredes de Coura no Porto, como aconteceu?
JC: O que está a acontecer com o Warm Up, eu acho que é um case study, porque eu não vejo isto em mais nenhum lado, que é o facto de o nome de uma terra já ser quase mais forte que qualquer terra. Paredes de Coura é sinónimo de música. Por isso trazer um festival com o nome de uma terra para a grande cidade do Porto é uma coisa estupenda. Não é o Warm Up Alive, nem o Warm Up Rock In Rio, é Warm Up Paredes de Coura. É o nome da terra e nem é preciso explicar o que é. E trazer o pré-festival para o Porto foi uma iniciativa, como já falamos, em parceria com a Vodafone. O Porto foi escolhido por ser, não só no norte, mas por muitas das pessoas que vão ao festival serem também do Porto. Não houve nenhuma razão em especial para ser no Porto.

NM: É um remédio para acalmar a ansiedade dos festivaleiros entusiastas?
JC: Sim… (risos) É uma boa pergunta. Mas penso que sim, muita gente que é recorrente no Paredes de Coura se vai reencontrar. O festival tem aquele grupo de amigos que se conheceu no Paredes de Coura e que se junta ao longo do ano para reviver alguns momentos dos verões passados e isto pode vir a ser um pretexto para os festivaleiros se reencontrarem.

NM: Como funcionou o processo de seleção  das bandas para o Warm Up? Porquê só duas bandas portuguesas?
JC:  Nós decidimos isso muito em cima da hora. Fizemos o cartaz muito rápido e procuramo-lo num espaço muito curto e tentamos, dentro do que estava disponível, ter o melhor cartaz possível. Relativamente às bandas portuguesas – duas, porque sim. Havia melhores propostas internacionais e nós queremos que seja um sucesso, por isso decidimos apostar nessas bandas.

NM: Alguns dos comentários que se fazem ao Warm Up, para além dos positivos, tem a ver com o facto desta iniciativa poder ser uma preparação para mover o Festival Paredes de Coura para uma grande cidade. São só rumores?
JC: Isso é um disparate. Não faz qualquer sentido. O festival Paredes de Coura é em Paredes de Coura. Aproveitar a marca para promover a terra, o Concelho, sim, mas o Paredes de Coura é obviamente nas margens do Taboão. Não fazia sentido deslocá-lo, senão passava a ser Paredes do Porto, ou Porto do Coura. Não. Perdia a mística.

NM: Este ano, o Paredes de Coura propõe novas soluções de alojamento – hotel amovível e casas para alugar. Para além da criatividade e inovação, qual foi a principal preocupação em criar estas alternativas?
JC: As casas sim, são uma certeza. São umas casinhas de madeira e o projeto vai mesmo avançar. O hotel ainda está numa fase de financiamento mas quer-me parecer que vai avançar. No entanto, a garantia são mesmo as casas amovíveis que vão dar uma vida engraçada ao campismo; é uma estrutura onde as pessoas podem ficar no rio, porque há quem não goste de acampar e prefira uma cama a um chão. Há quem diga que isto vai acabar com a mística do campismo – nem pensar! Vão ser 50 casinhas num pequeno campo, e quem acampa vai continuar a acampar.

NM: Os festivaleiros queixam-se, normalmente, das condições do festival (nas casas de banho, no campismo, etc.); a organização pensa este ano em solucionar alguns desses problemas ou ainda é uma ferida em aberto?
JC: As casas de banho são o maior problema, mas isso acontece tanto no Paredes de Coura como em todos os festivais, como é óbvio. Este ano estamos a pensar fazer casas de banho fixas, ou seja, construir 100 casas de banho novas no recinto, com paredes de madeira, com sanitas fixas, uma casa de banho como a que temos em casa. Vamos também reforçar a limpeza, em relação ao que tínhamos nos passados anos, para melhorar a experiência das pessoas no festival.

NM: Para além de o Festival ser a alegria de muitos portugueses (e estrangeiros que vêm de propósito), qual é o impacto do festival na vida de Paredes de Coura?
JC: Sabes que Paredes de Coura é uma terra que está votada ao esquecimento; tem perdido gente todos os anos, portanto o festival tem sido a salvação económica de grande parte do comércio. Há uns dias, saiu uma reportagem em que o presidente da Câmara dizia que durante a semana do festival, são levantados 2,5 milhões de euros nas caixas de multibanco da vila, esse dinheiro fica lá e quando estás numa terra onde aumenta o número do desemprego e onde os restaurantes e cafés estão com grandes dificuldades, e fecham a olhos vistos, o festival passa por ser uma salvação.
Paredes de Coura, a vila em si, e não só o festival, tem imensos adoradores em toda a parte, pelo país, pela Europa – só é pena que não visitem a terra durante todo o ano. Era um sonho que Paredes de Coura comunicasse o festival durante todo o ano e que as pessoas visitassem mais o Minho. Porque não, todos os fins de semana , haver uma banda a tocar na vila? Talvez num futuro próximo.

Entrevista: Marta Ribeiro

Recorda aqui, todas as imagens do Festival Paredes de Coura 2012.


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